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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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Cobertura sobre Saeb e Ideb foca no ensino médio

06/09/2018

Maioria das matérias em veículos nacionais ou locais destacou fraco desempenho dos adolescentes que terminam a escola; especialistas questionaram critérios usados pelo MEC para divulgar resultados

Tabela divulgada pelo Inep sobre o Saeb

O ensino médio esteve no centro da cobertura sobre os resultados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2017. A maioria das matérias focou no baixo nível de aprendizagem do 3º ano, com dados tantos nacionais quanto estaduais.

 

Além disso, a imprensa registrou algumas polêmicas sobre a divulgação. Diferentemente das edições anteriores, o Ministério da Educação apresentou primeiro os dados do Saeb e, quatro dias depois, os do Ideb. A forma como o MEC dividiu, também pela primeira vez, os níveis de aprendizagem dos alunos foi outro alvo de questionamentos.

 

Os grandes veículos publicaram materiais extensos, o que foi viabilizado pela divulgação antecipada dos resultados à imprensa. Como o embargo dado pelo MEC terminava às 11 horas de 30 de agosto, os veículos publicaram matérias nas suas versões online e depois nos impressos.

 

A Folha de S. Paulo destacou que apenas quatro estados conseguiram avançar significativamente na proficiência de matemática e língua portuguesa desde que o Ideb foi criado.

 

O Globo e o G1 adotaram linhas parecidas ao chamarem a atenção para a baixa proporção de estudantes do ensino médio com níveis adequados de aprendizagem. Algo que fez também o Estadão, que incluiu ainda o desempenho do ensino fundamental 2, melhor que o do médio, mas também preocupante. No dia 31, a versão impressa do Estadão deu manchete para o fato de o ensino médio ter piorado seu desempenho nos últimos 20 anos.


O jornal O Globo usou o caso do Ceará, que, embora tenha a menor desigualdade entre ricos e pobres no ensino fundamental no conjunto de unidades da Federação, não chegou ao mesmo nível de excelência no ensino médio. O G1 traçou um painel das desigualdades de proficiência entre estados, considerando nível socioeconômico dos alunos, dependência administrativa da escola (pública ou privada) e localização da unidade escolar (zona urbana ou zona rural).

 

Na mesma direção, a revista Nova Escola publicou reportagem enfatizando as desigualdades entre estados e regiões, evidenciando a relação entre as desigualdades socioeconômicas do país e o desempenho de estudantes no Saeb, especialmente no ensino médio: de maneira geral, os estados do Sudeste e do Sul tiveram pontuação acima da média nacional, mais elevada que os do Norte, Nordeste e Centro-Oeste – com exceção de Pernambuco e Rondônia.

 

Por outro lado, Estadão e Folha ressaltaram a queda das notas e da posição no ranking do Saeb do estado de São Paulo no ensino médio. A unidade mais rica da Federação fez parte do grupo de 12 estados que tiveram recuo no desempenho de estudantes. Com isso, em matemática São Paulo caiu da 7ª para a 11ª posição e em língua portuguesa, da 5ª para a 7ª posição.

 

Alguns textos avançaram no sentido de analisar o cenário. Um exemplo é a matéria sobre o Fórum Estadão, realizado um dia depois da divulgação do Saeb, no qual especialistas analisaram os resultados, enfatizando, por exemplo, avanços em Alagoas e em outras localidades, sem desconsiderar que o cenário geral apresentado pelo Saeb 2107 continua sendo desafiador.

 


Cobertura do Ideb

 

Muitas matérias sobre o Ideb destacaram o mau resultado do ensino médio e ensino fundamental 2 em todo o país, como foram os casos de O Globo e de Veja, assim como de notícias veiculadas na Globonews, Band e SBT. Constata-se que, independentemente do tipo de veículo, o tom das matérias tende a ser semelhante, no sentido de evidenciar os problemas e desafios envolvidos no ensino médio.

 

A Folha e o Estadão também delinearam um panorama nacional, porém optaram por partir de casos locais. Uma matéria sobre São Paulo mostrando que o estado perdeu a liderança em todos os níveis de ensino foi manchete da Folha. O jornal tabulou os dados da rede estadual paulista e enfatizou o fato de Geraldo Alckmin (PSDB) ser candidato à Presidência da República e ter governado o estado.

 

Além de publicar reportagem destacando o recuo do ensino médio paulista no Ideb e o fato de que só Goiás e Pernambuco atingiram a meta estadual do indicador, o Estadão deu ênfase ao município de São Paulo. A capital apresenta tendência de queda do indicador de qualidade no ensino fundamental 2 – etapa que, embora seja crucial para a compreensão dos desafios relacionados ao avanço dos estudantes na educação básica, inclusive no ensino médio, teve pouco destaque na cobertura como um todo.


Na mídia regional e local, o tom da cobertura sobre o Ideb foi o de chamar a atenção para os resultados locais, apontando em que medida melhoraram ou pioraram.  É o que se vê em reportagens publicadas no site da rede Notícias (ES), sobre o bom desempenho do ensino médio no Espírito Santo, e no site do jornal O Povo (CE), que aponta o sucesso do Ceará no ensino fundamental e os desafios para o médio.


No Distrito Federal, o site Metrópoles destacou as escolas com melhor desempenho no Ideb 2017, assim como fez o Diário Catarinense em Santa Catarina.

 

No Acre, o G1 abordou a evolução de seis escolas de ensino fundamental ao longo da década, oferecendo um olhar mais ampliado do resultado. Na mesma linha, o portal Terra apresentou o caso de uma escola de Santo André, no Grande ABC (SP), que teve bom desempenho no indicador.

 

 

Fatiamento e critérios 

 

Este ano, o Ministério da Educação adotou mudanças na divulgação do Saeb/Ideb, o que provocou polêmica entre especialistas e gestores. A primeira, destacada em reportagem da Folha, foi a de fatiar os dados, divulgando o Saeb antes do Ideb.

 

Em webinário realizado pela Jeduca em 27 de agosto, Luana Bergmann Soares, diretora de Avaliação da Educação Básica do Inep, e Carlos Eduardo Moreno Sampaio, diretor de Estatísticas Educacionais do instituto, atribuíram a decisão ao ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, e disseram concordar com ela. O objetivo, explicaram, era enfatizar o debate sobre a qualidade da aprendizagem dos estudantes, que, segundo os dois, normalmente ficava em segundo plano no anúncio do Ideb. Mas especialistas ouvidos pela Folha criticaram o fatiamento dos resultados, alegando, entre outros motivos, que isso poderia causar confusão e desmobilização, afetando o debate sobre a qualidade do ensino nas redes e escolas.

 

Na entrevista coletiva sobre os dados do Saeb, o ministro recorreu a vários powerpoints para reforçar a mensagem de que o nível de aprendizagem no ensino público do Brasil é desastroso. Rossieli deu exemplos de questões simples que a maioria dos alunos não consegue resolver em cada etapa de ensino. A Agência Brasil destacou um desses exemplos, uma questão que mostrava um palhaço segurando nove balões. Dois em cada dez alunos do 3º ano do fundamental, crianças de 8 anos, não assinalaram a resposta correta à pergunta sobre quantos balões havia na ilustração.

 

Rossieli Soares foi enfático quando falou sobre o ensino médio (“está absolutamente falido, está no fundo do poço”). Em texto publicado no portal do MEC, o ministro afirmou que a receita para salvar o ensino médio é a implementação da reforma da etapa, sancionada em fevereiro de 2017. Na coletiva, tanto ele quanto a presidente do Inep, Maria Inês Fini, destacaram que o sucesso da reforma depende da aprovação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) da etapa, que tramita no Conselho Nacional de Educação.

 

Como no caso do fatiamento, especialistas criticaram o critério usado pelo MEC na divulgação do Saeb, mais rígido que o usado tradicionalmente, como informou a Agência Brasil. A reportagem explicou que desde 1995, quando começaram a fazer o Saeb, os estudantes eram distribuídos em até dez níveis, sem uma definição sobre a partir de qual deles a aprendizagem era considerada suficiente. Este ano, pela primeira vez, o MEC fixou o nível 7 como o mínimo adequado.

 

Segundo a reportagem, até o Saeb anterior, de 2015, o parâmetro mais usual na análise da avaliação era o do movimento Todos pela Educação, calculado a partir do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), aplicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Esse parâmetro era de 4 para língua portuguesa e, em matemática, de 5 (ensino fundamental) ou 6 (ensino médio).

 

A Agência Brasil citou na matéria um artigo escrito pelo ex-presidente do Inep José Francisco Soares, compartilhado na rede da Jeduca. “O governo federal, ao divulgar, na semana passada, os resultados da Prova Brasil [outro nome do Saeb dos ensinos fundamental e médio], dividiu as notas dos estudantes em três níveis referidos como: Insuficiente, Básico e Adequado”, afirmou Chico Soares no texto. “No entanto, as escolhas de pontos de corte que definiram os níveis produziram uma mudança drástica no  diagnóstico da realidade educacional brasileira.”

 

Chico alertou que experiências tidas como exemplares até 2015 se tornaram “fracassos” com a nova metodologia. “A cidade de Sobral, que era considerada exemplo nacional, passou a ter apenas 13,4% dos alunos com aprendizado adequado em língua portuguesa, ao invés de 79,8% em 2015. Na realidade não ocorreu nenhum desastre educacional nos últimos dois anos, mas apenas a introdução de uma forma equivocada de sintetizar os dados da Prova Brasil.”

 

Outro artigo, publicado no Estadão, também questionou os critérios do MEC. Nele, o diretor-presidente do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), Ernesto Martins Faria, e o professor do Insper Tadeu da Ponte afirmaram que faltou transparência na mudança de parâmetro para análise do Saeb.

 

“O problema não é mudar o critério nem torná-lo mais exigente. A questão é que não está claro o que fundamenta essa ‘régua mais alta’. Além disso, há um evidente descasamento com as referências usadas por especialistas, técnicos e formuladores de políticas públicas, que têm sido amplamente utilizadas no Brasil e servem para fazermos comparações históricas”, afirmaram Faria e Ponte. “A mudança de critério sem esclarecimentos causa grande confusão para jornalistas, educadores e gestores. Os resultados positivos comemorados no passado não eram positivos? O que era adequado não é mais? O que conceituados especialistas sugeriam antes eram critérios com baixas expectativas? Difícil de acreditar que eles tenham errado por tamanha diferença.”


Em nota, o MEC explicou a mudança de parâmetro. “Em lugar dos níveis Abaixo do Básico, Básico, Proficiente e Avançado, foram utilizados Insuficiente, Básico e Adequado. Essa decisão foi tomada por um grupo de especialistas, que pela primeira vez fez uma readequação na escala considerando padrões de aprendizagem e o uso pedagógico dos dados quando de sua divulgação. Para o MEC, não é possível aceitar como adequada uma nota média em que boa parte dos alunos se enquadre em níveis baixíssimos de aprendizagens.”

 

O MEC deu um exemplo do novo parâmetro para matemática. Explicou que passou a ser considerado inadequado que os alunos saiam do 5º ano sem resolver problemas que envolvem habilidades como o domínio pleno das quatro operações e de noções básicas de frações. “O que apenas acontece, nessa nova interpretação, se os alunos estiverem no nível 6 de proficiência. Sem isso, as chances de reprovação no 6º ano são grandes.”

 

A íntegra da nota do MEC foi publicada pelo jornal O Globo em reportagem sobre outra frente de questionamentos à divulgação do Ideb, liderada por governadores. Em carta aberta datada de 2 de setembro, governadores da Bahia, do Ceará, de Pernambuco, do Piauí e da Paraíba lamentaram a exclusão do desempenho de estudantes do Ensino Médio Integrado no Saeb das redes estaduais.

 

No texto, os governadores mencionaram a Portaria Ministerial nº 447, de 24 de maio de 2017, que definiu como seria feita a avaliação censitária do Saeb 2017 para o ensino médio. Disseram que “em nenhum momento, a mencionada portaria prevê exclusão, no cálculo do Saeb agregado por rede”, dos estudantes do Ensino Médio Integrado.

 

Segundo os autores da carta, a modalidade responde, em alguns estados, por mais de 15% das matrículas. “A ausência destas escolas e alunos do cálculo da média dos estados faz com que o indicador divulgado não retrate a realidade, desconsiderando precisamente os efeitos positivos das recentes políticas estaduais de oferta do ensino médio integrado à educação profissional as quais têm, precisamente, o objetivo de superar a crise [da etapa], constituindo-se em legítima estratégia para melhorar os índices de aprendizagem.”

 

Na semana passada, o ex-governador Alckmin fez coro às críticas dos colegas nordestinos. Ele atribuiu à metodologia adotada pelo MEC a queda de São Paulo no ranking do Ideb em entrevista reproduzida pela Folha. “Quem faz o ensino médio na [rede de educação tecnológica paulista] Paula Souza faz vestibulinho, são os melhores alunos”, afirmou. “Todos os secretários da Educação fizeram uma carta ao MEC dizendo, 'olha, é um absurdo'. Não estava na portaria o que o Inep fez.”

 

O Inep respondeu aos governadores divulgando um ofício enviado por sua presidente, Maria Inês Fini, ao ministro Rossieli e uma nota técnica do instituto. No ofício, datado de 4 de setembro, Fini alega que o Ensino Médio Integrado representa apenas 5,5% das matrículas do ensino médio em nível nacional e 4,9% dos estudantes avaliados no Saeb. Diz ainda que para "manter a comparabilidade" com edições anteriores, nas quais o Ensino Médio Técnico não foi avaliado, o Saeb 2017 considerou as notas dos alunos da modalidade apenas nos resultados das suas escolas.

 

 

Pontos que merecem atenção

 

Numa divulgação como a dos resultados do Saeb e Ideb, é difícil escapar dos números e das comparações de desempenho entre estados, municípios e escolas. Ao mesmo tempo são inúmeras as possibilidades que se abrem para compreender mais a fundo as questões relacionadas aos avanços e desafios da educação brasileira. Algumas delas são:

 

- O ensino médio certamente merece atenção, mas é preciso ampliar o olhar para outras etapas da educação básica, em especial, para o ensino fundamental 2, que acabou sendo pouco enfocado na cobertura do Ideb e Saeb 2017. Além do resultado – se a meta foi atingida ou não –, o olhar mais aprofundado por parte dos jornalistas para o ensino fundamental 2 ajuda a trazer para o debate público alguns dos “nós” que influenciam no desempenho e no avanço dos estudantes.

 

- Nessa linha, o MEC divulgou dados sobre as taxas de insucesso, que merecem mais atenção e análise. Aqui, é recomendável que a pauta não se restrinja à apresentação dos dados e do cenário, mas coloque os resultados em perspectiva, a partir da análise dos fatores mais relevantes que contribuíram para eles, com possíveis soluções e alternativas.

 

- O Inep produziu, pela primeira vez, análises sobre as desigualdades internas nos estados, mas sem muito detalhamento. Alguns veículos trouxeram esses dados, mas ainda há o que explorar nessa dimensão, especialmente a partir da perspectiva local, detalhando aspectos e condições relacionadas às desigualdades. Da mesma maneira, é importante olhar também para as soluções e evidências.

 

- Olhar para as tendências é essencial. Dessa maneira não se perde de vista a relação entre os avanços e os desafios.

 

- Não perder de vista as experiências de sucesso. Aqui o cuidado é não transformá-las em modelos ou exemplos a serem seguidos. Ou em histórias de superação, dando um caráter heroico ao bom trabalho desenvolvido pela equipe de uma escola. O essencial é compreender de que maneira uma boa escola funciona, evidenciado práticas e ações que agreguem novas maneiras de se olhar para as questões da aprendizagem e da qualidade educacional.

 

Colaborou Sergio Pompeu 

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