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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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Jeduca reúne mais de 400 pessoas para falar de educação e eleição

13/08/2018

Debates no 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação mostraram necessidade de as reportagens se aproximarem da realidade das escolas, alunos e professores

A professora Maria do Socorro: mudanças de gestão e o chão da escola
Alice Vergueiro/Jeduca

Foco do 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, a cobertura da educação nas eleições vai exigir dos jornalistas a combinação de análises aprofundadas, didatismo nas reportagens e uma compreensão mais próxima da realidade de escolas, alunos e professores. Além da capacidade de lidar com um desafio básico: a área é sempre apontada como prioridade, mas aparece muito pouco no debate eleitoral – no Brasil ou no resto do mundo. E, quando isso acontece, as propostas não são claras ou mostram discursos recorrentes.

 

Essas foram algumas das mensagens do evento, que reuniu 430 pessoas nos dias 6 e 7 de agosto, no Colégio Rio Branco, em São Paulo. Foram realizadas 29 mesas e oficinas, que discutiram do ensino infantil ao superior.

 

Professor por oito anos e há quase duas décadas trabalhando na imprensa, o americano Greg Toppo defendeu uma maior proximidade dos jornalistas com as escolas. Presidente da EWA (Education Writers Association), Toppo disse que a entidade, que reúne jornalistas de educação dos Estados Unidos, tem batido na tecla de “botar os repórteres nas ruas” para conversar com alunos, pais, professores e diretores de escola. “Você tem que sair da redação e ver o que está acontecendo."

 

O Congresso abriu espaço para a realidade do dia a dia das escolas com depoimentos como o da professora da rede estadual do Pará Maria do Socorro Braga Reis, que falou sobre o impacto das mudanças de gestão no cotidiano dos docentes. “Todos vocês passaram pela escola, mas o professor permanece lá, lutando, sofrendo”, disse. “Cada mudança de gestão traz dores para quem está em sala de aula.”

 

Maria do Socorro falou de experiências comuns aos professores da rede pública, como a descontinuidade administrativa que afeta, por exemplo, programas de formação continuada e a sensação de que não são ouvidos na formulação de políticas. Se o professor não comprar a briga, não tiver um sentimento de pertença por aquilo foi colocado lá, pela escola dele, nada vai dar certo”, disse. “Todas as leis feitas no MEC são feitas de cima para baixo, por isso não dá certo.”   

 

Candidaturas e contexto 

 

Já na abertura do Congresso, o diretor da sucursal de Brasília do Estadão, Marcelo Beraba, advertiu que os jornalistas terão de superar obstáculos como o enxugamento das redações e o próprio contexto da campanha. Ele lembrou o caráter inédito das eleições deste ano, em que a conjugação de crises política, econômica e social coloca em xeque a própria democracia.

 

“Qual é a imagem que essas candidaturas estão querendo passar? Qual é o histórico dos candidatos? Há contradições no programa?”, enumerou Beraba. “Essas são algumas perguntas que precisam ser feitas.”

 

A necessidade de aprofundar questionamentos ficou patente no debate com representantes de Guilherme Boulos (PSOL), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), candidatos à Presidência da República. Daniel Cara (PSOL), Eduardo Pádua (PSDB) e Nelson Marconi (PDT) prometeram, por exemplo, melhorar a carreira dos professores, aumentando salários. Mas os tucanos propõem atrelar a remuneração ao desempenho dos estudantes, enquanto o PDT prevê a criação de uma prova nacional de avaliação dos docentes.

 

Outro tema que apareceu no debate como prioritário foi a atenção à primeira infância, mas ainda sem muito detalhes de como a política poderia prever mais do que apenas a ampliação de vagas em creches. Para a pesquisadora Maria Malta Campos, da Fundação Carlos Chagas, que participou da mesa sobre educação infantil do Congresso, não se pode exigir vaga a qualquer preço. “O atendimento de baixa qualidade é muito prejudicial para a criança pequena, ela é muito vulnerável”, alertou.

 

Segundo a especialista, também falta o primeiro passo para a expansão, que seria o levantamento da procura efetiva por vagas em cada município – o PNE (Plano Nacional de Educação) fixou como meta o atendimento de 50% da demanda até 2024. "A demanda varia de acordo com a realidade social, região, participação da mulher no mercado de trabalho, dentre outros fatores. Uma meta de 50% na cidade de São Paulo é pouco. Já no interior, será que as famílias estão de fato buscando isso?"

 

A experiência de quem já esteve no governo ajuda a situar melhor as propostas dos candidatos. O ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, e a ex-secretária de Educação do Rio, Cláudia Costin, também ressaltaram a necessidade de se investir na educação infantil.

 

Mas a avaliação de Janine sobre seus esforços para implementar a política de alfabetização na idade certa mostra como é complexo colocar em prática discursos como o da ampliação de creches. “A União se dirigia diretamente aos municípios e são mais de 5 mil cidades, muitas delas paupérrimas e sem recursos, não deu certo.”

 

'Pé no acelerador'

 

Participantes da mesa “A Educação e o Xadrez Político e Governamental”, Costin e Janine tocaram em outro ponto importante para a cobertura das eleições: embora a situação da educação brasileira esteja longe do ideal, não é o quadro de terra arrasada que se costuma passar à sociedade.

 

“Tem alguma coisa se movimentando positivamente. Tenho medo de que um novo governo jogue tudo fora e comece tudo de novo. Já estamos na direção correta, mas em ritmo lento. É preciso pisar no acelerador”, disse Costin, mencionando a melhora dos resultados da Prova Brasil no ensino fundamental. “Temos políticas prontas para implementar, basta maior esforço político", afirmou Janine.

 

Quando se fala em “esforço político” é preciso lembrar do PNE, abordado em outra mesa do Congresso. Em vigor desde 2014 depois de anos de discussão, o Plano prevê 20 metas para serem cumpridas (em prazos variáveis) até 2024. Até hoje, só foi atingida a meta 13, que amplia a proporção de mestres e doutores no corpo docente de instituições de ensino superior.

 

“O descumprimento [das metas] começou no governo Dilma Rousseff e seguiu no atual, de Michel Temer. O próximo presidente precisa ser confrontado com isso, precisa cumprir o que está na lei”, afirmou a ex-secretária de Educação do Rio Grande do Sul, Mariza Abreu.

 

Consultora da CNM (Confederação Nacional dos Municípios), Mariza ressaltou que a maioria das 5.561 prefeituras do país depende de verbas da União para financiar a educação. “Se o cenário econômico muda, mude-se também o planejamento”, disse Mariza. “Estamos conseguindo fazer planejamento de verdade de políticas públicas ou é um autoengano? Não podemos ter um planejamento irresponsável, sem verbas previstas.”

 

Teto de Gastos

 

A questão orçamentária é um aspecto chave em qualquer novo governo, especialmente em tempos de crise econômica aguda, como o atual. O próximo (ou próxima) presidente será o primeiro a iniciar o mandato com as restrições da Emenda Constitucional 95, do Teto de Gastos, que impôs limites severos ao investimento federal, atrelado à correção da inflação do ano anterior.

 

Também convidado do Congresso da Jeduca, o ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, admitiu que há falta de verba para sua pasta (“precisamos de mais recursos em todos os níveis”), mas defendeu a emenda. “O Brasil precisa ter controle de gastos, não pode gastar mais do que ganha. A PEC dos gastos, não sou técnico para falar em profundidade, não é necessariamente um corte na educação. Não teve cortes até hoje.”

 

O tema apareceu no debate da Jeduca com representantes de candidatos. Daniel Cara afirmou que Boulos revogará a emenda caso seja eleito – Ciro Gomes tem repetido a mesma proposta em entrevistas.

 

Na contramão da emenda, Daniel propôs a ampliação do investimento do governo federal no ensino básico, usando como mecanismo o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). Citando dados de 2014, disse que, de cada 1 real aplicado na área, a União contribui com 18 centavos, enquanto os municípios, que são quem menos arrecada, investem 42 centavos.

 

Sistema

 

Para muitos analistas, a definição mais clara da atribuição de cada esfera de governo é um elemento chave para o avanço da educação e passa pela criação do SNE (Sistema Nacional de Educação), tema de uma das mesas do Congresso. Titular da Sase (Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino) do Ministério da Educação entre 2014 e 2016, Binho Marques ressaltou o status peculiar do SNE: ele está previsto na Constituição desde 2009, mas a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) não o menciona.

 

Mesmo assim, elementos importantes do Sistema estão em vigor, como o Fundeb, que organiza o investimento das três esferas de poder na educação básica -- atribuição direta dos municípios e estados -- e o sistema de avaliação baseado na Prova Brasil. “Traduzindo em outros termos, poderíamos dizer que o Sistema é como um carro parado na garagem. Ele existe, mas não anda.”

 

Marques dividiu a mesa com o pesquisador Fernando Abrucio, professor da Fundação Getúlio Vargas, que tem se dedicado a estudos sobre o regime de colaboração entre estados, município e União. Abrucio considera o Ceará um exemplo dos ganhos que um regime de colaboração consistente propicia, citando melhorias expressivas nos indicadores educacionais obtidas a partir de 2007, especialmente nos anos iniciais do ensino fundamental. “O estado não tomou a rede municipal para si. Foi um trabalho de coordenação dos municípios.”

 

Aproximação com leitor

 

A complexidade das questões discutidas no Congresso da Jeduca dá a ideia do tamanho do desafio dos jornalistas para compreender e traduzir esses temas para o público. Uma tarefa difícil, mas que a imprensa não tem como evitar, de acordo com editores que falaram no Congresso sobre o peso da educação na cobertura da campanha eleitoral.

 

Apesar de o noticiário de educação ser o mais valorizado por 80% dos brasileiros, segundo levantamento feito para a Jeduca pelo Instituto Datafolha, boa parte do público não vê a relação das reportagens com a sua realidade. “O que dá certo nos jornais, tanto na rádio quanto na TV, é fazer a ligação direta entre educação e o que transforma a vida das pessoas”, afirmou o diretor-executivo de Jornalismo da Band e da Band News TV, André Luiz Costa.

 

O 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação contou com o patrocínio master da Fundação Lemann, Fundação Telefônica, Instituto C&A, Instituto Unibanco e Itaú BBA; patrocínio da Editora Moderna e Fundação Itaú Social; e apoio da Abraji, Canal Futura, Colégio Rio Branco, Escola de Dados, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Missão Diplomática dos EUA e Todos Pela Educação.


Texto produzido a partir da cobertura realizada por Marina Kuzuyabu, Maria Vitória Ramos, Jeniffer Mendonça e Diego Braga Norte

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