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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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Jornalista de educação tem papel privilegiado, diz repórter

28/05/2018

Para americana Elizabeth Green, criadora do site Chalkbeat, uma das missões do jornalismo de educação é ouvir quem normalmente fica excluído do debate e fazer essa voz chegar aos formuladores de políticas

Green: é preciso ir ao chão da escola
Daniel Deitch/W.W. Norton

Em uma pesquisa realizada em 2016 pela EWA (Education Writers Association), jornalistas americanos afirmaram que a desigualdade era o tema mais subestimado na cobertura de educação no país. Nesse sentido, Elizabeth Green pode se considerar uma exceção – ela tem abordado o tema, de uma forma ou de outra, desde sua primeira reportagem, ainda aos 15 anos, no jornal do colégio, como revelou nesta entrevista à Jeduca.

 

Em 2008, Green foi uma das fundadoras do site de notícias de educação Chalkbeat, que se define como uma “organização sem fins lucrativos dedicada à cobertura de uma das histórias mais importantes da América: o esforço para melhorar escolas para todos os estudantes, especialmente aqueles que historicamente não tiveram acesso ao ensino de qualidade”.

 

Graças a um modelo de negócios que combina doadores (geralmente grandes fundações e milionários) e patrocinadores, entre eles sindicatos de professores, o Chalkbeat é uma das organizações de mídia sem fins lucrativos que mais cresce nos Estados Unidos. Com equipe superior a 30 profissionais, o Chalkbeat aposta em uma estrutura segmentada geograficamente: além de uma homepage nacional, tem sites específicos para suas diversas redações, dedicadas à cobertura em nível estadual (Colorado, Indiana e Tennessee) e municipal (Nova York, Detroit e as duas praças mais recentes, Chicago e Newark).

 

"Não fazemos sobrevoos nem caímos de paraquedas [nas comunidades]", afirma o Chalkbeat no texto em que descreve sua política editorial e a ênfase na cobertura local. "Cobrimos pessoas, instituições e sistemas locais como se eles fossem tão importantes quanto o presidente, porque, na educação, eles são.”

 

Além do foco em estudantes historicamente desfavorecidos e da disposição de marcar presença nas comunidades, dando voz aos professores e autoridades locais, outro pilar do modelo concebido por Green é a independência editorial. Um exemplo: a Fundação Bill e Melinda Gates é uma das financiadoras do site, mas isso não impediu o Chalkbeat de publicar uma reportagem bastante crítica sobre a iniciativa da Gates de produzir conteúdo para professores do ensino médio nas áreas de língua inglesa, matemática e ciências, com base em um “currículo alinhado de alta qualidade”.

 

“[O projeto] é parte de uma reformulação da estratégia da filantropia, que se tornou uma das forças mais influentes da educação americana nas últimas duas décadas. Boa parte desse esforço tem provocado divisões”, diz o texto do site, lembrando que Gates (“um dos financiadores do Chalkbeat”) foi personagem chave da ofensiva pela adoção do Common Core, o currículo comum americano, e de processos de avaliação dos professores associados ao desempenho dos estudantes em testes.

 

Green também ganhou notoriedade como autora do livro “Building a Better Teacher”, que virou best-seller nos Estados Unidos (ele foi lançado no Brasil pela editora Da Boa Prosa, com o título “Formando Mais que um Professor”). Concebido a partir de uma reportagem produzida para a The New York Times Magazine, o livro fala do trabalho de educadores americanos obcecados com a formação docente e se dispõe a demolir o “mito” de que bons professores nascem prontos, por conta de uma vocação inata.

 

A visão de Green sobre a importância de acompanhar o que acontece no chão da escola e a política do site de valorização das vozes locais não livram a jornalista, que mantém colaborações com outros veículos, e o Chalkbeat de questionamentos. Um texto exemplar nesse aspecto é o que Green escreveu no site comentando a reportagem que produziu para a revista The Atlantic sobre Eva Moscowitz, polêmica líder de uma rede de charter schools (escolas privadas mantidas por recursos públicos).

 

“É impossível não imaginar o que ela, ou suas legiões de críticos, vão dizer. Hoje, provavelmente vou ser atacada pelos dois lados”, afirmou Green no texto publicado pelo Chalkbeat. Na reportagem da revista, a jornalista diz que Moscowitz criou a rede de escolas mais inovadora que ela conhece, mas admite que isso ocorreu porque a empresária deixou a democracia fora da equação – as charter schools não precisam seguir o regime trabalhista das escolas públicas nem prestar contas à comunidade sobre sua gestão ou projeto pedagógico.

 

A jornalista acertou na previsão de que receberia críticas, pelo menos do lado dos educadores. Professor e blogueiro, Peter Green escreveu um post no qual afirma que a reportagem é parcial, por sugerir que Moscowitz, com seu estilo agressivo de gestão, “é o monstro do qual a educação precisa”, algo “perturbador, particularmente na Era Trump”.

 

Green falou à Jeduca sobre os questionamentos que recebe e sobre o papel do jornalista no debate de educação. Para ela, profissionais de imprensa “estão numa posição privilegiada para serem verdadeiros intérpretes, intermediários entre os que têm poder para tomar decisões sobre políticas e investimentos e, do outro lado, as pessoas afetadas por essas decisões”. “É algo que me motiva a ter minhas próprias convicções e fazer esse trabalho.”

 

Veja a seguir a entrevista, na qual Green conta como se tornou jornalista de educação, fala sobre o Chalkbeat e o livro, além de comentar sobre uma figura ainda mais polêmica do que Moskowitz, a secretária de Educação do governo Trump, Betsy DeVos.

 

Como você se interessou pelo jornalismo de educação?

 

Eu descobri minha paixão por jornalismo, minha paixão por escrever sobre educação e pelo tema educação no ensino médio, porque minha escola [a Montgomery Blair High School, que fica no Condado de Montgomery, estado de Virgínia] tinha uma população muito diversa de estudantes, tanto em termos de raça quanto do acesso dos pais à faculdade e do status socioeconômico. E já se falava sobre a disparidade de desempenho entre os diferentes subgrupos de alunos. Mas se falava sobre isso de uma forma que era realmente divorciada das pessoas reais.

 

O jornal da escola era um projeto bastante sério, os professores diziam que nosso trabalho como jornalistas era servir a comunidade escolar. E servir a toda a comunidade, não só o grupo ao qual cada um de nós pertencia. Então isso incluía pessoas como eu, que iriam depois para a faculdade e tinham famílias em condição econômica confortável, e outras pessoas em situação bastante diferente. Achei que seria interessante tratar dessa disparidade de desempenho do ponto de vista dos estudantes.

 

E foi uma experiência que de fato mudou minha vida, porque quando eu me sentei para conversar com os colegas percebi que tínhamos tudo em comum – e, ao mesmo tempo, nada. A voz deles estava ausente da história. Então a experiência de contar uma história maior, permitindo que vozes diferentes fossem ouvidas – e entender como isso poderia forçar pessoas em posições de poder a ouvirem essas vozes e mudarem sua visão sobre as coisas – foi uma experiência realmente poderosa para mim.

 

Aí eu pensei: “Ok, isso é o que eu realmente quero fazer, ser parte da mudança na educação, para que mais pessoas tenham acesso a oportunidades.” Porque meus colegas me disseram coisas como “Ninguém espera nada de mim”. Uma menina disse: “Eles esperam que eu vire uma mãe adolescente. Quero provar que eles estão errados.” E essas vozes não eram ouvidas pelos professores. Não acho que havia uma percepção de como os alunos se sentiam sobre o que os professores pensavam deles.

 

Quando comecei a visitar diferentes classes na escola, vi o quanto a experiência mudava de uma para outra, com expectativas muito diferentes. Em uma turma o espírito era quase o de pajear estudantes, enquanto outra era mais rigorosa academicamente. Não era uma questão de que os estudantes fossem incapazes de pensar ou trabalhar em alto nível, eles queriam isso. Queriam ser desafiados, mas ninguém os estava desafiando. Foi assim que eu desenvolvi a paixão pelo trabalho que faço até hoje.

 

Como surgiu a ideia de começar o Chalkbeat?

 

Quando eu entrei de fato no mercado, em 2006, busquei trabalhos que me permitissem cumprir aquela missão que eu tinha me imposto a partir da minha experiência no ensino médio e na universidade. Mas infelizmente os jornais e revistas tinham começado a realmente cortar o investimento em pessoal. Lembro, por exemplo, de uma reportagem na qual me mandaram de Nova York para Boston por três dias e de como o resultado final deixava claro que a repórter não conhecia muito bem a comunidade sobre a qual estava falando. Percebi que se quisesse fazer o tipo de apuração na qual acreditava – e queria que mais gente pudesse fazer isso, não apenas eu –, então eu tinha que criar um outro tipo de modelo de negócio para apoiar isso.

 

De que maneira você conseguiu montar esse modelo e, ao mesmo tempo, manter uma linha editorial independente?

 

Tive sorte de aos poucos ir montando o que nós temos hoje, um novo tipo de apoio para o jornalismo independente, por meio de filantropia e apoiadores públicos que se dispõem a assinar embaixo da visão: “Sim, o jornalismo independente é importante e nós precisamos de uma imprensa forte e livre se quisermos ver a educação avançar.” Então criamos esse modelo de negócio e também pensamos bastante sobre seria a nossa distribuição geográfica, porque as necessidades da sociedade são tão grandes, tanto nos Estados Unidos quanto fora dele, que superam a capacidade de cobertura pela imprensa, como você deve saber bem.

 

Como surgiu o projeto do livro?

 

Eu queria escrever sobre qualidade do professor, que era um tópico sobre o qual se falava bastante, e a The New York Times Magazine me encomendou uma matéria sobre isso. Foi um trabalho incrível, porque eu sempre tinha pensado em educação como uma questão de justiça social, de uma política de justiça social que depende da educação, mas não tinha pensado nos meios, no que acontece de fato nas salas de aula.

 

E realmente foi algo que abriu meus olhos começar a ver o que acontecia de verdade nas salas de aula. Percebi o quanto boa parte do debate sobre políticas é mal direcionado, porque se partia de ideias preconcebidas sobre o que é necessário para melhorar o trabalho do professor e para ajudar os estudantes, mas essas visões eram equivocadas. Então o projeto todo, o artigo na Magazine, me inspirou a tocar nessa ferida nas conversas com as pessoas com quem eu dialogava, porque eu comecei a ressaltar esse fosso que existia entre o que se achava que era verdade e a realidade concreta. Aí eu achei que tinha mais a dizer e mais debates para influenciar do que eu seria capaz de fazer só com um artigo de revista.

 

O livro é um relato bastante intenso sobre pessoas bastante intensas, obcecadas pela questão da formação de professores. Como você encara a repercussão do livro, que virou best-seller, mas recebeu reparos de alguns educadores? Um dos argumentos dos críticos é o de que você precisa ser um educador para entender o contexto do ensino, o que coloca em xeque o papel dos jornalistas. Críticas semelhantes se estendem a textos seus publicados no Chalkbeat e em outros veículos. Como você lida com isso?

 

Acho que educadores têm – pelo menos aqui nos Estados Unidos, não sei como é em outros países – uma boa dose de ceticismo, por causa dos outsiders que chegam e dizem que conhecem educação. E eu acho bastante compreensível esse ceticismo porque esses outsiders muitas vezes têm a pretensão de conhecer tudo sobre educação e frequentemente estão errados.

 

Acho que a diferença entre outsiders e jornalistas é que jornalistas passam na verdade bastante tempo conversando com as pessoas que estão de fato trabalhando no chão da escola. Estão numa posição privilegiada para serem verdadeiros intérpretes, intermediários entre os que têm poder para fazer decisões sobre políticas e investimentos e, do outro lado, as pessoas afetadas por essas decisões.

 

Uma amiga disse uma vez algo que foi realmente marcante para mim. Ela disse: “Sabe, eu sou professora, todo santo dia trabalho com as crianças e não tenho tempo para ser uma voz, falar para os responsáveis por políticas o que acontece na minha sala de aula e sobre as minhas necessidades. Eu preciso de você para fazer isso por mim, porque você vai gastar cada minuto do seu tempo trabalhando nisso, enquanto eu gasto cada minuto do meu dia ajudando as crianças a aprenderem.”

 

Acho que, no fim das contas, isso é verdade. É algo que me motiva a ter minhas próprias convicções e fazer esse trabalho, ainda que algumas vezes, você sabe, ele esteja sujeito a críticas.

 

Como tem sido cobrir a gestão da atual secretária de Educação, Betsy DeVos? Não lembro de alguém ter tido, pelo menos no passado recente, tanta visibilidade no cargo. As propostas de DeVos, como o incentivo ao programa de vouchers (pelo qual o poder público banca matrículas em escolas privadas), são uma fonte contínua de polêmicas. Qual a possibilidade de ela conseguir avançar uma agenda considerada privatizante?

 

Acho que vivemos uma situação muito interessante, porque aqui nos Estados Unidos e mesmo no exterior, as pessoas nunca falaram tanto sobre uma secretária de Educação como fazem com Betsy DeVos. Mas a realidade é que DeVos não é tão influente quanto a imagem dela sugere. E isso acontece em boa parte por causa da natureza do sistema de educação americano. Autoridades locais e estaduais têm um poder muito maior do que o governo federal sobre os resultados, sobre o que acontece na educação.

 

Além disso, foi a administração Obama, na verdade, que teve uma intervenção maior sobre o que acontece nas escolas públicas deste país. Aquela gestão teve a oportunidade de usar os estímulos financeiros adotados para fazer frente à crise de 2008 para induzir fortemente – oferecendo fundos para os estados, que seguiram esse caminho – reformas nas leis estaduais sobre educação.

 

Então, Betsy DeVos tem alguma influência, mas muito limitada. Ela não consegue, por exemplo, reunir apoio para a política de vouchers a menos que legisladores estaduais concordem com essa mudança. Mas legisladores estaduais não são algo que ela possa controlar, DeVos não tem muito o que fazer para influenciá-los. A gestão Obama tinha mais poder nesse sentido, de supervisionar legisladores. 

 

Você falou antes sobre a necessidade de a cobertura de educação estar conectada à realidade local. O Chalkbeat tem planos de se expandir também internacionalmente? Chegar ao Brasil, talvez (risos)?

 

Acho que a cobertura de educação no Brasil é uma missão para vocês, brasileiros (risos).

 

Ok, quem sabe alguns colegas mais empreendedores abracem a causa (risos).

#ElizabethGreen #Chalkbeat

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