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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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Noticiário destaca greve incomum de professores da rede privada

11/06/2018

Jornalistas falam do desafio de discutir as implicações para a educação ao cobrir movimento que tem disputas políticas

Famigerado

Greve de professor geralmente significa paralisação do trabalho de docentes de escolas ou universidades públicas. Mas, no fim de maio, um dos temas de destaque da cobertura educacional foi a paralisação dos professores de escolas particulares paulistas, que afetou mais de cem instituições.

 

O movimento teve destaque no noticiário pela forte adesão da categoria e por ser incomum. Há 15 anos não ocorria um impasse tão acirrado entre patrões e empregados do segmento, que, durante cinco meses, mantiveram uma negociação em torno da convenção coletiva sem chegar a um acordo, noticiou o portal G1.

 

A convenção coletiva é um documento com 64 cláusulas sobre as condições de trabalho, definidas por patrões e empregados ao longo de 20 anos, como informou o Nexo. Um dos receios da categoria era o rompimento desse acordo, abrindo a brecha para que algumas escolas o mantivessem e outras não, explicou matéria do Estadão.

 

O forte apoio das famílias e dos estudantes – principalmente de escolas de elite, principais leitores da grande imprensa – também ajudou a dar destaque para o assunto. Os professores não pediam aumento de salário e, sim, defendiam a preservação de direitos adquiridos há anos pela categoria. Entre eles, a garantia semestral de salários, 30 dias de recesso remunerado no fim do ano, férias coletivas e concessão de duas bolsas de estudo para filhos de professores em escolas com até 200 alunos.

 

O sindicato patronal alegou motivos relacionados ao planejamento e à saúde financeira das escolas para justificar suas propostas. Defendia a redução do recesso remunerado de 30 para 23 dias, a suspensão das bolsas de estudo e a possibilidade de fragmentar o período de férias.

 

Como noticiou a Folha de S. Paulo, as escolas argumentaram que a diminuição do recesso era necessária para viabilizar a organização da oferta dos 200 dias letivos anuais previstos pela legislação. Já a concessão de bolsas de estudos para filhos de docentes, afirma o sindicato patronal, prejudicaria escolas de pequeno porte. A fragmentação das férias, segundo o sindicato das escolas, está prevista na legislação trabalhista pós-reforma, em vigor desde 2017.

 

Para a repórter Isabela Palhares, do jornal O Estado de S.Paulo, a relação do movimento reivindicatório dos professores e a reforma trabalhista é uma das chaves da cobertura. “Essa greve é representativa, entre outras coisas, por se tratar de uma categoria grande e por ser uma das primeiras afetadas pela reforma.”

 

Ela acredita que este foi um fator que atraiu o apoio dos pais de alunos ao movimento. “Não se imaginava que direitos consolidados e muito representativos da categoria, como as bolsas de estudo e o recesso de fim de ano, pudessem ser retirados com a reforma trabalhista, o que levou à indignação e mobilização de muitos pais.”

 

O jornalista Paulo Saldaña, responsável pela cobertura do movimento na Folha, tem uma percepção parecida. Para ele, a relação entre o movimento dos professores e a reforma trabalhista é um ponto central. Ele destaca a proposta de fragmentação das férias como uma das principais novidades desse movimento. “Essa questão não se colocava antes da reforma trabalhista e por isso precisa ser tratada com cuidado pelo jornalista”, diz.

 

O risco, analisa o repórter, é cair na armadilha de se fazer uma leitura ideológica da disputa. Para evitar isso, ele defende que é necessário levar em conta dois aspectos: guiar-se pelo que diz a lei e pelos desdobramentos factuais e ter sempre em conta os pontos de vista de todos os atores envolvidos. “O importante é ficar atento ao que está na lei, ao que é permitido ou não.”

 

Nesse sentido, a proposta dos patrões é legítima, na medida em que se situa dentro dos parâmetros legais. Ao mesmo tempo, é preciso contextualizá-la dentro de uma problemática maior.

 

Ou seja, a fragmentação das férias e a reconfiguração de direitos adquiridos são aceitáveis a partir da perspectiva da legislação e do novo contexto imposto pela reforma, mas existem outros aspectos que precisam ser considerados: qual seria o efeito dessas medidas, se chegassem a ser implementadas, sobre as condições de trabalho do professor? E sobre a qualidade da educação ofertada nas escolas?

 

“O importante e desafiador na cobertura é não deixar que as matérias se restrinjam à disputa trabalhista, mas mostrar seus efeitos na qualidade da educação. Mostrar aos pais como esses direitos trabalhistas influenciam não só os custos das escolas e das mensalidades, mas o ensino dos seus filhos”, analisa Isabela.

 

Para isso, o repórter precisa conhecer e compreender como funciona a categoria. Quem são os professores das escolas privadas? Qual a sua condição salarial? Como é a condição de trabalho nas grandes escolas? E nas pequenas? Este é, precisamente, um dos desafios centrais da cobertura. “Existe uma unidade enquanto categoria em termos da convenção coletiva, mas ao mesmo tempo a fragmentação é enorme”, analisa Saldaña.

 

No estado de São Paulo são mais de 10 mil escolas – 4 mil na capital – com perfis muito diferenciados. As características dos profissionais e as relações entre patrões e empregados variam muito. “A realidade das escolas grandes e localizadas nas regiões centrais é diferente da de escolas pequenas e na periferia, onde tende a existir mais proximidade entre o dono da escola e os professores”, exemplifica o jornalista.

 

Essa fragmentação dificulta a visão geral da categoria e, até, a percepção da representatividade da mobilização. “Quando noticiamos que cem escolas aderiram à paralisação parece muito, mas é preciso lembrar que isso é 2% do total”, diz Saldaña. “As escolas de elite e grandes têm representatividade porque são famosas, mas não são a realidade do professor em termos de condições de trabalho, carreira, salário. Elas não representam a totalidade da categoria de escolas particulares.”

 

Os docentes da rede privada correspondem a cerca de um quarto dos 2,2 milhões de professores brasileiros e são vistos como profissionais que atuam em condições mais favoráveis do que seus colegas da rede pública. Mas, como assinalou a jornalista Sabine Righetti em seu blog, apesar de os problemas da educação serem associados à rede pública, a mobilização dos professores nas escolas particulares evidenciou que elas enfrentam desafios parecidos com relação a condições de trabalho, por exemplo.

 

A repórter Isabela Palhares também acredita que o movimento colocou em xeque a percepção de que a escola privada está distante dos problemas educacionais do País. Na matéria “Paralisação de professor cria racha de escolas privadas”, ela mostrou as discrepâncias entre as escolas grandes e as pequenas quanto às possibilidades de manter a convenção coletiva.

 

Na semana passada, o movimento dos professores saiu vitorioso ao conseguir por um ano garantir os termos da convenção coletiva, assinada entre os dois sindicatos, como mostrou o G1. Mas as discussões não devem acabar. Para Paulo Saldaña, o acordo foi firmado dentro do que foi possível no momento e, no próximo ano, pode haver nova disputa em torno da convenção coletiva.

 

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