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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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Vouchers e polarização são destaques em seminário nos EUA

17/05/2019

Evento da Education Writers Association, realizado em Baltimore no início de maio, debate sobre os desafios da cobertura de educação na atualidade

A secretária de Estado de Educação dos EUA, Betsy DeVos
James Minichello, AASA/Education Writers Associatio

No cenário atual, é importante que os jornalistas de educação acompanhem os debates que estão acontecendo nos Estados Unidos. Afinal, existem diversas interfaces entre os temas e as propostas em discussão lá e aqui. Para quem quer se manter atualizado sobre essas questões, um dos principais eventos voltados para jornalistas de educação é o seminário anual da EWA (Education Writers Association) – a Jeduca dos Estados Unidos.

 

Em 2019, o evento foi realizado de 6 a 8 de maio na cidade de Baltimore e teve como um de seus pontos altos a participação da secretária de Educação dos Estados Unidos, Betsy DeVos.

 

Desde 2017, quando assumiu o departamento responsável pelas políticas de Educação do governo Trump, DeVos era convidada a participar do congresso anual da EWA. Ela recusou duas vezes. No entanto, na segunda-feira (6/5) foi diferente: para uma plateia de repórteres e editores ansiosos em ouvi-la, explicou o porquê da resistência em comparecer ao principal evento de jornalismo de educação dos Estados Unidos.

 

"Eu não gosto da publicidade que vem junto à minha posição", disse ela, que ainda afirmou: "Sou uma pessoa introvertida".

 

A disposição da secretária para ser questionada durante uma hora pela jornalista do The New York Times Erica Green e de responder perguntas da plateia — boa parte delas com fortes questionamentos às suas ideias de livre mercado na educação — pode ser considerada um dos pontos altos do evento, que terminou na quarta-feira (9/5), em Baltimore. A seguir, apresento alguns tópicos sobre as principais discussões do evento.

 

Livre mercado na educação

Começo por um tema que jornalistas que cobrem educação no Brasil precisam ficar atentos: a criação de um livre mercado na educação. A ideia, defendida desde a campanha eleitoral pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, é que os pais, financiados pelo governo, possam escolher onde matricular os filhos, utilizando vouchers. O modelo é uma das principais bandeiras de Betsy DeVos para a educação americana.

 

No seminário da EWA, a secretária americana defendeu que o seu maior desafio é "empoderar os pais para que eles façam as melhores escolhas para o futuro dos seus filhos" – pode ser via ensino domiciliar (o chamado homeschooling é regulamentado nos EUA), por meio das charters schools (escolas públicas geridas por instituições privadas) ou pelos vouchers (quando a família recebe uma espécie de vale em dinheiro do governo para poder escolher a escola – seja pública ou privada).

 

"Eu entrei para a política para propor ações que empoderem as famílias. Hoje 90% dos alunos estão nas escolas públicas (nos Estados Unidos), mas 60% dos pais querem algo diferente", afirmou.

 

A secretária americana defende que a liberdade de escolha vai incentivar a competição entre as escolas e, com isso, melhorar a qualidade. Não é um discurso novo, o modelo surgiu a partir das ideias do Nobel de Economia Milton Friedman na década de 1950. A proposta da secretária de Trump é estimular pessoas e empresas a doarem dinheiro para um programa de bolsas a fim de que alunos das escolas públicas possam migrar para outras instituições.

 

Contudo, pesquisadores argumentam que a implementação da política dos vouchers nos Estados Unidos não melhorou a qualidade das escolas (indico no final deste texto um livro sobre o assunto).

 

Questionei alguns pesquisadores no seminário da EWA sobre como os jornalistas podem trabalhar com esses temas, que tem crescido em interesse no Brasil. Mostrar o que as pesquisas apontam sobre o que foi feito nos Estados Unidos é um caminho. A Folha de S.Paulo, por exemplo, publicou no começo do ano reportagem com dados sobre os vouchers na educação e na saúde. No começo de maio, o mesmo jornal apresentou estudo mostrando que o homeschooling não tem eficácia comprovada nos EUA.

 

Para o professor do Teachers College, da Universidade de Columbia, Jeffrey R. Henig, os jornalistas precisam de um olhar atento porque nesse modelo de livre escolha, existem exemplos positivos, mas também uma formação precária para muitos estudantes.  

 

Para se aprofundar no tema:

O livro “Vida e morte no grande sistema escolar americano: como testes padronizados e modelo de mercado ameaçam a educação”, de Diane Ravitch (Editora Sulina). Secretária assistente de educação no governo Bush na década de 1990, Ravitch explica no livro por que mudou de posição em relação aos vouchers, charters schools e avaliações em larga escala.  O livro traz elementos interessantes para compreender o sistema escolar americano e as disputas em torno de projetos para a educação no país.

 

No site do Credo (Center for Resarch on Education Outcomes), especializado em avaliação de políticas educacionais ligado à Universidade de Stanford, é possível acessar diversos estudos sobre o impacto dos vouchers e das charter schools nos Estados Unidos.

 

Como medir o sucesso dos estudantes?

O primeiro painel do seminário da EWA foi sobre um dos temas da edição 2019 do evento: o sucesso dos estudantes. Como medir? O que levar em conta? Resultados em provas de português e matemática são bons indicativos do sucesso dos estudantes? Pesquisadores deram respostas úteis para a cobertura jornalística, muito focada nos Estados Unidos – e no Brasil também – nos resultados das avaliações em larga escala.

 

Para o professor Rucker Johnson, da Universidade da Califórnia-Berkeley, o sucesso de um estudante é muito mais do que ir bem em uma prova de cálculo ou de escrita. Envolve fatores mais difíceis de serem mensurados, como se esses alunos se sentem felizes, se têm apoio da família e da escola, se são incentivados em suas habilidades. Ela afirma que esse grau de sucesso depende de políticas educacionais – a formação permanente dos professores é uma delas – e de saúde, para garantir o bem-estar dos estudantes.

 

A jornalista Meghan Irons, do Boston Globe, apresentou um exemplo de apuração que vai além das tradicionais análises sobre o desempenho nas provas em larga escala – como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) no Brasil.

 

O projeto Valedictorians analisou as notas de estudantes de ensino médio e concluiu que aqueles com desempenho mais alto não são, necessariamente, os mais bem-sucedidos profissionalmente. Para isso foi necessário um longo trabalho: a equipe do jornal entrevistou 93 dos melhores alunos que concluíram o ensino médio em Boston entre 2005 e 2007. Para estabelecer um padrão de comparação, outros 65 estudantes da mesma época, mas sem desempenho elevado, foram selecionados, de forma randômica, para entrevistas. O material do projeto pode ser conferido no site do jornal.

 

Ataques em massa nas escolas. Como cobrir?

Além do sucesso dos estudantes, o seminário de 2019 da EWA teve como temas a segurança e o bem-estar. E um dos assuntos que não sai da pauta na cobertura de educação nos Estados Unidos são os ataques em massa nas instituições de ensino. Vinte anos após o massacre de Columbine, em que dois alunos entraram armados na escola onde estudavam mataram 13 pessoas, crimes semelhantes seguem acontecendo (como o que ocorreu no dia 7/5 último, a menos de 12 quilômetros de distância de Columbine High School) e muito ainda há o que aprender sobre a cobertura desse tipo de tragédia.

 

Um dos pontos debatidos por Dave Cullen, autor dos bestsellers “Columbine e Parkland: Birth of a Movement”, Akoto Ofori-Atta, editora do The Trace, e Scott Travis, que integra a equipe vencedora do Pulitzer de 2019 pela cobertura do massacre de Parkland, foi como a mídia deve lidar com a exposição dos assassinos.

 

No caso de Columbine, os jovens que se suicidaram após dispararem contra colegas tornaram-se celebridades por conta da ampla exposição na mídia e são considerados inspiração para outros ataques a tiros, inclusive no massacre de Suzano, em São Paulo, este ano. Mas o que fazer? Para eles, é difícil omitir a identidade dos assassinos, mas os jornalistas precisam ter cuidado com uma exposição exagerada.

 

Outro ponto levantado é a necessidade de reportagens que abordem questões relacionadas à prevenção da violência praticada por estudantes. Segundo Travis, é responsabilidade dos "jornalistas cobrar ações dos governos para prevenir ataques", como programas de saúde mental para os jovens dentro das escolas.

 

Vale conferir:

Akoto apresentou o trabalho que coordenou envolvendo estudantes de jornalismo para fazer o perfil de 1,2 mil crianças e jovens que morreram em um intervalo de um ano após o massacre de Parkland, em 2017. A ideia foi mostrar o impacto da violência provocada pelas armas de fogo – um debate quente nos Estados Unidos, e que também cresce no Brasil com as propostas do governo Bolsonaro de facilitar o acesso da população às armas. O projeto pode ser conferido no site do projeto Since Parkland.

 

Para combater a polarização, complicar a narrativa

Não é só no Brasil que a vida do jornalista anda complicada diante das fake news e das manifestações de ódio ao trabalho da imprensa. Um dos painéis do seminário da EWA discutiu justamente como lidar com essas questões num cenário de polarização política.

 

A ideia apresentada pela jornalista e escritora Amanda Ripley é de que é necessário “complicar a narrativa”, ou seja, dar mais elementos para o debate, que fujam do senso comum.

 

Ripley contou que, após as eleições de 2016, quando a polarização política ganhou contornos elevados com a vitória de Donald Trump, decidiu pesquisar sobre como o jornalismo precisava mudar para dar conta do novo contexto. A resposta encontrada é de que é preciso ir a fundo quando se quer reportar um tema polêmico. Não basta mais apenas ouvir um lado e outro e construir a narrativa a partir das duas visões contraditórias, como o jornalismo tradicionalmente faz.

 

É necessário, segundo ela, agregar novos elementos, trazer comparações internacionais (como tal política funcionou ou não em outros países, por exemplo), incluir dados, usar recursos de infográficos. E fazer novas, e melhores, perguntas. Outra dica é que o jornalismo não pode ter o objetivo de mudar as ideias das pessoas, mas sim de despertar a curiosidade. "As pessoas podem manter seus valores centrais, mas encontrar um espaço comum”.

 

O trabalho de Amanda Ripley pode ser conferido em seu site, The Whole Story.

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