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Guga Scatena/Jeduca
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"Agora é a vez do vídeo": redes sociais são a chave para atrair público para o jornalismo

A adaptação dos veículos, conteúdos e profissionais à produção audiovisual online foi tema de mesa do 10º congresso da Jeduca

27/10/2026
Por Nina Miliauskas Bozic, repórter da Jornalismo Júnior*

“Não podemos ter resistência. É pegar e gravar”, afirma Milena Teixeira, colunista do portal Metrópoles, sobre a divulgação de conteúdos da imprensa nas redes sociais. O tema foi discutido na conversa “Foco no Feed: como as redações de veículos escritos têm investido em vídeo e o que impacta o jornalismo?”, no segundo dia (23/9) do 10° Congresso Internacional de Jornalismo de Educação. 

 

Além de Milena, a mesa contou com Luiza Tenente, repórter do g1 e diretora do Jeduca, Jéssica Nakamura, produtora de vídeos para a DW Brasil, e Larissa Burchard, repórter de vídeo do Estadão. Com mediação de Thaís Borges, repórter do Jornal Correio (BA) e diretora do Jeduca, a mesa discutiu as diferentes maneiras do jornalismo se adaptar à produção de vídeos.

 

A era dos vídeos 

 

O consumo de notícias através das redes sociais ultrapassou o consumo pela mídia tradicional, revela o Digital Reports News 2026, estudo realizado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism. Durante a mesa, Jéssica trouxe a informação como forma de destacar a importância do jornalismo estar nas redes sociais.

 

A repórter explica que a DW Brasil atualmente tem 70% de sua produção voltada para as redes sociais, adaptação necessária para acompanhar os interesses do público. Larissa relata uma experiência similar: “a cobertura política do Estadão, por exemplo, se tornou ‘video first’, com prioridade para as imagens para as redes sociais. Costuma ser até mais prático, captar a imagem e depois escrever”.

 

A equipe de divulgação digital do Estadão conta com áreas separadas para a captação,
gravação e edição de vídeos [Imagem: Reprodução/ Jeduca]

 

 

Luiza, que atua no g1 há 11 anos, diz que mudou muito a rotina de gravações do veículo. “Antes, fazer uma gravação era um grande evento. Precisávamos de uma equipe, que planejava e produzia por dias. Hoje, se demorarmos esse tempo para produzir um vídeo, o assunto já morreu”, explica. Ela aponta que os algoritmos digitais e a demanda do público exigem velocidade e atenção constantes dos profissionais.

 

Milena complementou dizendo que é essencial que jornalistas estejam dispostos a acessar e produzir conteúdos online. As plataformas sociais são espaços para a conquista de novos públicos e um monitor dos interesses da sociedade. “Vejo alguns colegas que têm resistência a gravar vídeos. Eu digo para eles: temos que ler e divulgar nossas próprias informações, e isso é só possível gravando”.

 

Diferentes veículos, mesmo formato

 

Segundo Larissa, a adaptação do Estadão para as redes sociais foi gradual. Inicialmente, as produções eram feitas por uma equipe reduzida e, com o tempo, expandiram conforme os jornalistas começaram a se interessar. “Fizemos várias oficinas com os repórteres para que todos tivessem a habilidade de fazer vídeos. Chegou um momento em que cada um começou a pensar em um vídeo para sua matéria”, conta.

 

Milena destacou que o Metrópoles, por ser um veículo nativo digital, é especialmente voltado às redes sociais, equilibrando textos com produtos online. No TikTok, o Metrópoles é o veículo mais seguido na América Latina, frequentemente atingindo recordes de audiência na rede.

 

 

 

[Imagem: Guga Scatena/ Jeduca]

 

 

Ela contou que grava até três vídeos por dia, e que o nível de produção deles varia. Frequentemente, faz gravações de momentos não relevantes para um texto, mas que atraem a atenção do público: “gravei um empresário entrando em um jatinho para falar com o presidente Lula, e o vídeo atingiu 3 milhões de visualizações”. Para temas mais complexos, ela explica que faz vídeos que servem como “iscas” para seus textos, instigando a curiosidade do espectador.  

 

Jéssica, por sua vez, explicou que realiza toda a produção de seus vídeos, da apuração à edição. A DW é uma rede alemã que produz conteúdo globalmente, e tem a jornalista como a primeira correspondente brasileira local para a produção nas redes sociais. O novo formato permitiu que a jornalista experimentasse formatos, e com isso ela passou a entender o que agrada seu público.

 

Contato com o público

 

 

Tenente explica que é difícil traduzir dados da educação para o público geral [Imagem: Reprodução/ Jeduca]

 

Porém, todas as jornalistas mencionaram encontrar um mesmo obstáculo: “traduzir” a linguagem jornalística e temas complexos para o público digital. 

 

Para Luiza, a comunicação digital é mais descontraída e próxima do espectador do que a imprensa tradicional. “Os primeiros vídeos do g1 eram muito sisudos, e ninguém assistiria hoje em dia. Passamos para o formato vertical, que mudou muito a nossa linguagem”, conta. A duração curta e a busca por atenção e permanência do público são alguns dos principais diferenciais do formato.

 

A busca por um público jovem é um desafio das redes, afirmou Luiza,  principalmente no jornalismo de educação: “muita gente acha que, para falar de Enem, precisa parecer jovem, e essa imagem costuma ser estereotipada, com muitos exageros. Acho que, se eu tentasse fazer isso, ficaria forçado”.

 

 
 
Então, ela aconselha os colegas a não tentarem criar uma performance para a câmera, mas usar uma linguagem própria e acessível.

Jéssica complementou que o público passa a se conectar com criadores de conteúdo a partir de aspectos genuínos da sua produção. “O grande desafio é você ser você mesmo e criar uma persona jornalística pública que tenha a ver com você”. Adicionar memes que gosta e gravar da sua própria casa num cenário do cotidiano, por exemplo, são maneiras  que ela utiliza para se aproximar dos espectadores.

“O jornalismo das redes sociais subverte tudo aquilo que aprendemos na faculdade”


Jéssica Nakamura

 

 

Jéssica tem série bem humorada sobre educação sexual, e celebra poder abordar o tema de forma leve
com o público jovem [Imagem: Reprodução/ Jeduca]

 

Larissa também falou sobre a criação de relações com o público: “as pessoas vão se identificar com você e não com a instituição. Elas entendem que não é o Estadão, é a Larissa que está falando”. Ela dá o exemplo de seu quadro, o “Guia do Adulto Premium”, em que utiliza memes e humor para explicar notícias e temas em alta como uma aproximação dos espectadores através de uma linguagem comum na internet.

 

Milena conta que os vídeos mais populares são aqueles mais descontraídos: “recebo muitas visualizações quando gravo no formato selfie, em que dá para perceber que sou eu mesma segurando a câmera e falando com ela”. Admite que, pelo cenário político nacional, procura afastar sua imagem pessoal da pública, mas que ainda conquista credibilidade através de seus diferenciais, como o carisma.

 

A representatividade mantém conexões, afirma. Assim, ela e Jéssica, como mulheres não brancas, explicam que se viram pouco representadas na mídia tradicional, e que é importante que criem e ocupem espaço nas redes sociais.

 

“A internet tem espaço para todos”


Milena Teixeira

 

 
 
 
 
 
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).


O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium. 

 

Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir. 

 

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