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Guga Scatena/Jeduca
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ECA Digital avança na proteção de crianças, mas implementação ainda é parcial

Especialistas discutiram, em mesa do #Jeduca2026, os primeiros meses da nova lei e a responsabilidade das famílias e do jornalismo diante dos riscos no ambiente online

26/10/2026
Por Lívia Falbo, repórter da Jornalismo Júnior*

Os riscos a que as crianças e os adolescentes estão expostos no ambiente digital e o papel dos pais e responsáveis no acompanhamento e na proteção dos jovens na internet foram os temas centrais da mesa "ECA Digital: Os novos desafios da escola e do jornalismo de educação".

 

A mesa reuniu Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana, Michele Prado, assessora especial do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul (NUPVE-MPRS), e Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). A mediação foi de Renata Cafardo, repórter especial do Estadão e presidente da Jeduca. 

 

O ECA Digital (Lei 5.211/2025) entrou em vigor no dia 17 de março de 2026 e estabeleceu várias medidas de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital: verificação efetiva da idade dos usuários, responsabilização das plataformas por conteúdos nocivos e criminosos, supervisão parental reforçada, proibição da publicidade direcionada e combate a mecanismos que estimulam vícios digitais. As plataformas tiveram seis meses para desenvolver as adaptações e os mecanismos necessários para garantir o cumprimento das exigências da nova legislação. 

 

 

A sessão foi realizada no segundo dia (23 de setembro) do 10º Congresso da Jeduca, em setembro
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]

 

 

O comportamento melhorou após a implementação do ECA Digital?

A juíza Vanessa destacou as mudanças no perfil dos cidadãos que chegam à Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro ao longo dos seus 11 anos de atuação. Segundo ela, atualmente, a maioria dos processos envolve jovens – principalmente meninos – de classe média/alta que se envolvem em crimes digitais. “Mesmo quando um crime não é praticado online, ele tem alguma relação com o uso precoce e excessivo do ambiente digital", ressaltou.

 

Ela explicou que, por ser recente, o ECA Digital ainda está em fase de implementação, o que dificulta a avaliação dos efeitos e identificação de eventuais mudanças desde sua entrada em vigor e se a ausência de determinados casos ou ocorrências está diretamente relacionada à aplicação da nova legislação.

 

Vanessa também opinou que acredita que o ECA Digital é a “melhor lei do mundo”, mas ainda precisa de ajustes. “Ainda não está tendo o seu cumprimento exigido da forma que deveria”, disse. Ela fez uma crítica à  ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados). “Não dá para entender porque a ANPD, até esse momento, ainda não fez o que tem que fazer”, questionou. Para a juíza, a suspensão das lives no Discord demorou a acontecer e foi insuficiente. Na avaliação dela, a entrada em vigor do ECA Digital deveria ter levado à abertura, já no dia seguinte, de um procedimento de investigação contra a plataforma.

 

“A lógica das pessoas éticas preocupadas com crianças e adolescentes que estão com depressão e ansiedade, se automutilando e suicidando não é a lógica das big techs, que pensam no capital.”


Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro 

 

 
 
 
  
Vanessa Cavalieri é autora do Protocolo Eu Te Vejo - um projeto de prevenção à violência escolar
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
 
 

O que é Discord e como ele funciona 

Michele explicou que o Discord é um aplicativo focado em um público gamer jovem, e chegou a ser utilizado por escolas na época da pandemia. Ele é apenas uma das plataformas de atuação de grupos de NVE (Extremismo Violento Niilista). “Existe uma rede transnacional violenta de exploração sádica chamada The Com. O Com vem de community, já que são comunidades. É um ecossistema”, afirmou. 


Segundo ela, cada plataforma é explorada de uma maneira específica por esses grupos. Eles aproveitam as vulnerabilidades do público-alvo e as utilizam para iniciar o recrutamento. “Quanto mais vítimas você conseguir, quanto mais sádico você for, maior será o seu status dentro da rede”, analisou.  

 

“Não são coisas aleatórias. A automultilação, a indução ao suicídio, são dinâmicas intragrupo para eles garantirem maior status dentro desse ecossistema de violência sádica.”


Michele Prado, assessora especial do Núcleo de Prevenção á Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul 

 

 
 

Ela ainda indicou a dificuldade de acabar definitivamente com esses grupos. Isso porque, cada vez que palavras ou ideias são banidas de uma plataforma – após sinalizado pelo NUPVE –, são criadas outras. “Tudo é muito dinâmico nesse campo”, disse. Citou como exemplo o uso da sigla “CP”, referência a “child pornography” (pornografia infantil). Quando o termo foi identificado e derrubado, os usuários passaram a utilizar outras expressões para substituí-lo, como “cheese pizza” e, posteriormente, “café preto”. 


Michele alertou para os riscos de tratar grupos extremistas como comunidades inofensivas da internet e defendeu que esses grupos sejam apresentados como comunidades extremistas e violentas, e não como uma simples brincadeira ou subcultura digital.

 

Primeiros relatórios

Plataformas digitais com mais de 1 milhão de usuários menores de 18 anos registrados no Brasil publicaram o seu primeiro relatório de transparência semestral exigido pelo ECA Digital em setembro. No documento, eram necessários dados sobre denúncias, processos de moderação de conteúdos e contas, gestão de riscos e medidas técnicas adotadas para garantir a proteção dos usuários.   

 

“Precisamos celebrar o ECA Digital, que traz essa possibilidade de termos os relatórios.”


Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana

 

 
 
 

Ana Cláudia Cifali chamou a atenção para a priorização de estratégias de prevenção e as maneiras como
a nova lei pode se articular com outras legislações [Foto: Guga Scatena/Jeduca]

 
 

Ana Cláudia afirmou que os relatórios são o primeiro contato que a sociedade e as agências do governo terão com o que está acontecendo nas plataformas digitais. Segundo ela, os documentos têm métricas muito diferentes, o que torna a comparação difícil, mas já trazem alguns indicativos. Apesar disso, ela destacou que os dados numéricos sobre a remoção de conteúdos relacionados à violência sexual são insuficientes para compreender a dimensão do problema. 


“A gente já sabe que tem uma grande quantidade de crimes acontecendo nessas plataformas”, afirmou Cifali. Para ela, mais importante do que os números absolutos é entender que as empresas têm conhecimento do que ocorre em seus ambientes digitais e, mesmo assim, ainda fazem muito pouco para enfrentar essas situações.


O ambiente digital é para crianças? 

Depois da crítica, Ana Cláudia trouxe um olhar positivo para a nova legislação. “O ECA Digital é um exemplo para o mundo”, defendeu. Ela explicou que o Brasil optou por priorizar medidas de prevenção em vez de afastar crianças e adolescentes do ambiente digital, reconhecendo que a internet também pode oferecer experiências e oportunidades positivas para esse público. De acordo com ela, especialistas brasileiros ainda trabalham para compreender como o ECA Digital deverá se articular com as demais legislações já existentes. 


Por sua vez, Vanessa alertou que as redes sociais possibilitam a interação com pessoas desconhecidas e, por isso, defendeu que o acesso a determinadas plataformas seja restrito a adultos. Neste sentido, a juíza propôs uma comparação com situações do cotidiano: “Com quantos anos seu filho pode ficar sozinho em casa? Abrir a porta para um estranho? Essa é a idade que ele pode estar nas redes sociais”, completou.


Michele afirmou que o Brasil investe pouco em profissionais para responder ao volume de denúncias que as plataformas enviam. Ela argumentou que não há como o ECA Digital ser efetivo se as instituições não estiverem capacitadas para o que está sendo enfrentado. Para ela, a violência sofrida por crianças e adolescentes na internet é um problema multifatorial e, por isso, precisa de respostas multissetoriais. 

 

“O ECA Digital não é bala de prata.” 

Michele Prado 

 

No painel, a pesquisadora Michele Prado também apresentou boas práticas para a imprensa na cobertura do tema 
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]

 

 

Importância da supervisão parental e o papel do jornalismo

Nesse sentido, Michele enfatizou que é responsabilidade dos pais manter a atenção em comportamentos suspeitos de seus filhos. “Existem sinais que essas crianças e esses adolescentes dão quando eles estão sendo radicalizados online, e não são poucos”, alertou. Dentre eles, ela destacou o aparecimento de animais de estimação machucados ou mortos sem uma explicação aparente e a automutilação com padrões – letras, números, desenhos ou símbolos. 

 

A juíza defendeu que, embora a responsabilidade não recaia exclusivamente sobre os pais, eles desempenham um papel fundamental na prevenção desses casos. “É claro que as big techs precisam ser responsabilizadas, mas pais e mães podem evitar que, pelo menos dentro de sua casa, esse inferno chegue”, afirmou. 

 

Segundo ela, muitos pais deixam de intervir por desconhecerem os riscos e não saberem identificar possíveis sinais de alerta. Por isso, defendeu que os jornalistas que já dominam o tema têm o papel de pautar e informar aqueles que ainda não têm conhecimento sobre o assunto. “Temos que fazer a nossa parte, conscientizar todo mundo", disse. 

 

Michele chamou atenção para a publicação de vídeos de violência ou conteúdo sádico em reportagens. Segundo ela, mesmo quando o objetivo é denunciar o material, sua divulgação pode retirá-lo da bolha original, ampliar seu alcance e dar visibilidade aos responsáveis. A exposição repetida também pode contribuir para a dessensibilização do público. Como alternativa, defendeu a adoção de protocolos de boas práticas para a imprensa (imagem abaixo) e acompanhamento de termos utilizados pelas subculturas violentas e suas linguagens digitais (como as que constam neste glossário). Ela também sugeriu que as reportagens incluam orientações sobre canais de denúncia e serviços de apoio.

 

Orientações do protocolo de boas práticas para a imprensa, organizado pelo NUPVE e PROEVE, do MPRS

 

Ana Claudia destacou que o ECA Digital abre espaço para discutir qual internet a sociedade quer para crianças e adolescentes. Segundo ela, ainda não há respostas definitivas, e o jornalismo pode contribuir ouvindo os jovens sobre suas experiências nas plataformas e investigando os conteúdos que acessam e o papel das tecnologias nas escolas. 

 

Serviço

Canais de denúncia

Safernet Brasil  - Serviço de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra os Direitos Humanos na Internet

Contato: (11) 95591 0796

comunicacao@safernet.org.br

Canal helpline da SaferNet

 

Disque 100 Web - Canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos para denúncias de violências infantojuvenis

 

ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) - fiscaliza o uso indevido de dados de crianças e adolescentes ou falhas nas plataformas

 

Comunica PF (Polícia Federal) - plataforma de denúncia de crimes cibernéticos

 

Escola Segura: Canal do Governo Federal para denunciar ameaças contra escolas

 

Centro de Valorização da Vida (CVV) - e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188. 

 

 

 
 

 

 
 
 
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

 

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium. 

 

Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir. 

 

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