Os desafios da educação brasileira, o futuro do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o novo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), a EJA ( Educação de Jovens e Adultos), a implementação de políticas públicas e a inteligência artificial na escola foram os temas abordados na sabatina com o ministro da Educação, Leonardo Barchini, no dia 23/9, durante o 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca.
O ministro respondeu aos questionamentos de cinco jornalistas, que participaram do evento como bolsistas: Daiana Araújo, do Diário do Nordeste (CE), Luciana Araújo, do Correio Carajás (PA), Laura Machado, do Portal Catarinas (SC), Paixão, do Instituto Gira (AP), e Tiago Virgílio, da rádio Educadora FM (BA). A conversa foi conduzida por Bruno Alfano, repórter do jornal O Globo e integrante da diretoria da Jeduca.
Daiana Araújo, do Diário do Nordeste (CE), abriu a sabatina. A jornalista questionou a respeito do planejamento do MEC para a inclusão de questões abertas no Enem de 2028 e como evitar que os estudantes da rede pública fiquem em desvantagem durante essa transição.
O ministro afirmou que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) está “debruçado sobre a prova para aperfeiçoá-la” e que deverá haver uma mudança na forma como leitura e escrita são cobradas no Enem, diante dos resultados recentes do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). O Pisa 2025 mostrou queda na proficiência em leitura em boa parte dos países avaliados. O Brasil ficou estável em relação a 2022, mas a proficiência dos estudantes brasileiros permanece abaixo da média da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).
Segundo Barchini, a expectativa, com base nas discussões que tem acompanhado, é que a redação seja modificada, mas não detalhes de como será isso. Ele também ressaltou a importância do exame como política de inclusão e reconheceu que a elaboração da prova está cercada por desafios, entre eles sustentar a atenção do estudante no contexto tecnológico atual.
“A questão das telas é uma grande preocupação. Prender a atenção dos estudantes por um longo período de tempo tem ficado cada vez mais difícil.”
Leonardo Barchini
Para apoiar os candidatos de diferentes realidades socioeconômicas, o ministro destacou a Rede Nacional de Cursinhos Populares, criada em 2025, e o aprimoramento contínuo de plataformas públicas, como o MEC Enem, que oferecem apoio e podem ser usadas na preparação para o Enem, durante a transição para o novo formato.

A primeira pergunta da sabatina foi da jornalista Dahiana Araújo, de Fortaleza (CE)
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
O novo Ideb e a cultura da repetência
Luciana Araújo, do Correio Carajás (PA), foi a segunda a questionar o ministro, com uma pergunta sobre a reformulação do Ideb. Com base em relatos de educadores do interior do Pará, que consideram que o índice não reflete a realidade porque algumas redes estariam inflando as aprovações e, com isso aumentando a pontuação no Ideb.
O Ideb é calculado com base nas taxas de aprovação e no desempenho dos estudantes no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Em 2025, o Ideb bateu recordes desde o início da série histórica em 2007 em todas as etapas: ensino fundamental - anos iniciais, ensino fundamental - anos finais e ensino médio. A alta, porém, foi impulsionada, principalmente, pelo aumento da taxa de aprovação de alunos.
Em resposta, Barchini afirmou que o índice foi formulado originalmente para combater a "cultura da repetência". Segundo ele, o indicador cumpriu seu papel de corrigir o fluxo escolar e garantir a inclusão dos estudantes na escola. No entanto, reconheceu que a evolução do índice sustentada prioritariamente pela taxa de aprovação está atingindo o seu limite.
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Luciana Araújo, de Marabá (PA), perguntou ao ministro sobre as mudanças no Ideb e qualidade de ensino
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
Sobre as mudanças e a reestruturação conduzida pelo Inep, o ministro destacou a necessidade de migrar a atenção para o ganho real de aprendizagem: “Está terminando a melhoria do índice do Ideb a partir do indicativo de fluxo. Precisamos verificar se a proficiência está aumentando ou não. No próximo ano, o foco será no Saeb, o salto no fluxo não será tão grande, porque o foco agora é na aprendizagem”, afirmou.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) também foi um dos assuntos que nortearam a sabatina. A jornalista Laura Machado, do Portal Catarinas, destacou a queda das matrículas na EJA, num contexto em que 1 a cada 3 brasileiros são analfabetos funcionais segundo o Índice de Alfabetismo Funcional (Inaf), em contraponto aos programas do MEC para a modalidade. “Por que os programas de EJA criados no governo ainda não estão apresentando resultados, considerando a queda constante de matrículas na EJA e com quase metade da população acima de 25 anos sem concluir o ensino médio?”, perguntou a jornalista.
O ministro iniciou a resposta fazendo um panorama da história da educação. Segundo ele, a redução na procura pela EJA reflete, em primeiro lugar, um avanço no fluxo na educação básica. Isso porque, em 2006, apenas um terço dos jovens de até 19 anos concluía a educação básica na idade adequada — taxa que atualmente se aproxima dos 80%.
Com mais estudantes se formando no tempo esperado, diminuiu a quantidade de pessoas que chegam à vida adulta sem o diploma, reduzindo o público potencial da EJA. Barchini, entretanto, afirmou que apesar do número de brasileiros sem educação básica ter diminuído de 80 milhões no passado para 64 milhões atualmente, ainda existe trabalho a ser feito.
“Essa sim é a verdadeira herança maldita brasileira, dos governantes e de tudo que construímos no século 20”
Leonardo Barchini
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A pergunta da jornalista Luciana Araújo, de Macabá (PA), abordou as mudanças no Ideb e qualidade de ensino
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
A comunicadora Paixão, do Instituto Gira, abordou a implementação de políticas públicas. “Quando a gente fala em garantir a equidade da educação no Brasil, ainda existe uma enorme diferença entre pensar uma política nacional e fazer essa política chegar de fato a territórios ribeirinhos, indígenas e quilombolas e as comunidades afastadas dos grandes centros”, contextualizou.
O ministro falou sobre o histórico de subfinanciamento em educação, sobretudo no Norte e Nordeste e citou o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) como uma política que tenta equalizar as desigualdades de financiamento. Além disso, enfatizou que a educação “é um processo”, que os resultados levam tempo a aparecer e que, na visão dele, a educação brasileira está no “rumo correto”, com ajustes de rota.
“Esse objetivo alcançado de colocar todo mundo para dentro [da escola], de resolver a questão do fluxo, vai nos levar a outros desafios. Agora, a gente vai ter que olhar para quem entrou, ver quem ainda falta e, daqueles que entraram, para quem a gente vai ter de olhar mais? E qual política a gente vai ter de desenvolver para que todos esses jovens possam se desenvolver plenamente? Esse é o desafio do Ministério da Educação nos próximos 20 anos”, argumentou Barchini.
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A pergunta da jornalista Paixão, de Macapá (AP), destacou a equidade e efetividade de programas
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
A inteligência artificial nas escolas foi o tema da pergunta do jornalista Tiago Virgilio, da rádio Educadora FM (BA). “Quais têm sido as estratégias do MEC para que os alunos das escolas públicas aprendam a usar essas ferramentas de forma crítica e a pensar sobre elas?”, perguntou.
“Existe uma ilusão que a tecnologia vai resolver todos os problemas, mas a única tecnologia social na história da humanidade que resolveu todos os problemas chama professor e professora. E não inventaram um equipamento melhor do que o livro didático físico”, afirmou Barchini.
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Na sabatina, o jornalista Thiago Virgilio Santos, de Salvador (BA), perguntou ao ministro sobre IA e o uso crítico nas escolas
[Foto: Guga Scatena/Jeduca]
Para ele, a inteligência artificial é um processo, uma ferramenta, que não pode prescindir da mediação do professor. Diante disso, a estratégia do MEC é formar os docentes para utilizar a inteligência artificial com segurança e orientar os alunos no uso da ferramenta. Esse é o caminho, na visão do ministro, para evitar o uso indiscriminado da tecnologia.
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.