Em agosto, o MEC (Ministério da Educação) deverá divulgar os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2025, principal indicador da qualidade do ensino fundamental e do médio para as redes públicas e privadas. O lançamento do Ideb ocorre juntamente a divulgação do Saeb 2025 (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica).
Criado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) em 2007 para funcionar como referência de qualidade da educação básica, o Ideb é calculado a partir das médias de desempenho do Saeb e dos dados de fluxo escolar do Censo Escolar de um mesmo ano.
A divulgação do Ideb 2025 ocorre a alguns meses das Eleições Gerais de 2026 de outubro, o que chama mais atenção para a possibilidade de uso dos resultados em campanhas eleitorais e demanda cuidado e atenção dos jornalistas na cobertura.
Além disso, o Ideb 2025 será divulgado num contexto marcado por debates sobre a necessidade de atualizar o indicador, bem como sobre o futuro dos indicadores educacionais brasileiros.
O primeiro ciclo de metas do Ideb encerrou em 2021 e, embora o Inep tenha iniciado uma discussão sobre a reformulação do indicador há cerca de dois anos, ainda não há definição sobre eventuais mudanças no indicador. Por isso, a expectativa é que o Ideb 2025 seja anunciado no mesmo formato dos anteriores.
Reformulação do Ideb
Outubro 2020 - Diante da finalização do ciclo de metas no Ideb 2021, com a publicação da Portaria n.º 556, o MEC criou Grupo de Trabalho com especialistas para discutir a atualização do indicador. O GT teve prazo de seis meses para apresentar proposta com novas diretrizes para o Ideb.
Março de 2021 - As discussões foram suspensas e o Grupo de Trabalho foi dissolvido pela pasta, como conta matéria do O Globo. A produção do estudo técnico para o novo Ideb passou para a ser responsabilidade da Secretaria Executiva do MEC.
Janeiro de 2024 - Por meio da Portaria nº 26, o MEC criou outro grupo de trabalho com a responsabilidade de produzir estudo técnico para subsidiar a atualização do Índice e a definição de novas metas. A portaria definiu o prazo de seis meses (agosto de 2024) para elaboração da proposta. Até 2026, a proposta ainda não havia sido apresentada.
Neste miniguia, você encontra:
- O que é o Ideb?
- Como o Ideb é calculado?
- Linha do tempo do Ideb
- Possíveis análises do Ideb
- Pontos de atenção para a cobertura do Ideb
O Ideb é um indicador sintético dos ensinos fundamental e médio, abrangendo escolas públicas e privadas. Combina dois parâmetros:
Considerando esse dois aspectos, o Ideb mostra em uma escala de 0 a 10 em que medida os estudantes estão aprendendo e passando de ano. Ambos os parâmetros estão interligados, de modo que variações de um deles afetam o peso do outro.
Abrangência do Ideb
O Ideb retrata separadamente diferentes realidades:etapas de ensino, regiões geográficas e dependência administrativa (federal, estadual, municipal ou privada). Então, ao olhar para os resultados, é preciso prestar atenção à qual Ideb está sendo analisado.
Ideb por etapa de ensino
- Anos iniciais do ensino fundamental (1º a 5º ano)
- Anos finais do ensino fundamental (6º a 9º ano)
- Ensino médio (3º ano)
Ideb por dimensão geográfica por dimensão geográfica
- Brasil
- Estados e Distrito Federal
- Municípios
- Escolas
Ideb por dependência administrativa
- Municipais
- Estaduais
- Pública
- Privada
- Total (média geral de todas as redes)
- Federal (disponível por escola; entra no cálculo da média da rede pública)

1990 - Criação do Saeb, sistema de avaliação da educação básica. A primeira edição foi amostral e avaliou estudantes do ensino fundamental (1ª, 3ª, 5ª e 7ª séries) de escolas públicas em português, matemática, ciências e redação.
1995 - Inep adota a TRI (Teoria de Resposta ao Item), metodologia que permite a comparação de resultados de diferentes edições. A avaliação foi amostral e aplicada a estudantes de escolas públicas e privadas do ensino fundamental (4ª e 8ª séries) e médio (3º série). Avaliou português e matemática.
2005 - Reestruturação do Saeb, que passa a ser composto por duas avaliações, a Anresc (Avaliação Nacional do Rendimento Escolar), mais conhecida como Prova Brasil, e Aneb (Avaliação Nacional da Educação Básica).
2007 - Lançamento do Ideb.
2013 - A ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização) passa a compor o Saeb. Avalia os estudantes do 3º ano do ensino fundamental em leitura, escrita e matemática.
2017 - A Prova Brasil passa a ser censitária para todas as escolas públicas de ensino médio e para escolas particulares que solicitem avaliação de todos os estudantes.
2019 - As siglas Aneb, ANA e Anresc (Prova Brasil)deixam de existir e são unificadas como Saeb. Alinhamento do Saeb às matrizes da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), aprovada em 2017. A avaliação de alfabetização passa a ser realizada com estudantes do 2º ano do ensino fundamental, de forma amostral.
2021/22 - A divulgação dos resultados do Ideb 2021, apresentados em 2022, marca o encerramento do ciclo de metas bienais para o país, estados, municípios e escolas, iniciado em 2007.
O Ideb se estrutura em um sistema de metas bienais e graduais a partir de 2005 (ano-referência) até 2021. O objetivo era fazer com que as escolas, redes e sistemas de ensino melhorassem progressivamente até o Brasil chegar, em conjunto, à meta 6 em 2022, ano do bicentenário da Independência.
A meta 6 para o país tomou como referência a qualidade dos sistemas educacionais da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) na época em que o Ideb foi criado. O indicador foi calculado por meio da compatibilização de proficiências do Saeb e do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).
Segundo o órgão, a nota 6 corresponde ao nível de desempenho de estudantes brasileiros com melhores pontuações no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), avaliação realizada pela OCDE.
O Inep destaca ainda que a nota 6 do Ideb corresponde a um sistema educacional de qualidade comparável ao dos países desenvolvidos, sendo considerada uma nota alta.
O Brasil participa da avaliação internacional, mas costuma estar abaixo da média internacional dos países que compõem a OCDE e figurar entre os últimos colocados entre os países participantes nas três áreas avaliadas: matemática, ciências e leitura.
Para 2021, foram estabelecidas as seguintes metas:
Embora a meta-referência seja 6, as metas dos anos finais e do ensino médio foram ajustadas por conta do histórico do desempenho e fluxo escolar nessas fases.
Também foram definidas metas intermediárias a cada biênio para o país, estados, municípios e escolas (2007, 2009, 2011, 2013, 2015, 2017 e 2019).
As metas e resultados do país, estados e municípios em todas as edições do Ideb podem ser conferidos aqui.
Últimas edições do Ideb
Resultados recentes - Brasil
Ensino fundamental - Anos iniciais
Ideb 2021: 5,8, abaixo da meta (6,0)
Ideb 2023: 6
Ensino fundamental - Anos finais
Ideb 2021: 5,1, abaixo da meta nacional (5,5)
Ideb 2023: 5
Ensino Médio
Ideb 2021: 4,9, abaixo da meta nacional (5,2)
Ideb 2023: 4,3
Escolas e redes com Ideb 10
Em 2023, pela primeira vez, uma rede de ensino alcançou Ideb 10 e duas redes tiveram Ideb acima de 9. Elas se localizam em Alagoas, Ceará e Pernambuco.
Apesar de não ser impossível, é virtualmente impossível atingir um Ideb 10, uma vez que é necessário aliar um altíssimo desempenho no Saeb a um índice de reprovação próximo de zero.
Por isso, esse resultado desencadeou um debate. Entre os pontos levantados estão uma aparente incoerência dos resultados com o contexto socioeconômico das escolas e a possível adoção de práticas excludentes para diminuir a reprovação e o abandono (desligamento de estudantes com baixa frequência, exclusão de alunos com baixo desempenho da aplicação do Saeb, etc.).
Há quase 20 anos, o Ideb monitora a qualidade da educação brasileira. No entanto, como qualquer indicador, o Ideb possui limitações, que ficaram mais evidentes ao longo do tempo.
Uma crítica é que o Ideb se baseia em apenas dois aspectos (desempenho no Saeb e taxa de aprovação), desconsiderando outras dimensões relevantes do processo educacional, como práticas pedagógicas, forma de avaliar, infraestrutura e gestão democrática, entre outros.
Essa estrutura exclui do Ideb o efeito de fatores externos à escola (renda familiar, escolaridade dos pais, acesso à educação infantil etc.) no desempenho e na trajetória escolar, como mostram diversos estudos já há algumas décadas. A partir da análise dos resultados do Ideb 2021 e 2023 e do Inse ( Índice de Nível Socioeconômico), elaborado pelo Inep, reportagem da Folha de S.Paulo identificou que escolas com estudantes com menor nível socioeconômico possuem uma diferença que equivale a quatro anos de aprendizado em comparação a unidades que atendem estudantes das camadas de maior renda.
O Ideb também não capta os efeitos das desigualdades educacionais associadas às desigualdades étnico-raciais, de gênero e socioeconômicas, entre outras. Estudos mostram, por exemplo, que a trajetória escolar e o desempenho dos estudantes negros tende a ser pior em comparação com estudantes brancos, relata matéria da Marco Zero Conteúdo, baseada em estudo do Observatório da Branquitude.
Assim, ao analisar os resultados do Ideb, é fundamental que os jornalistas levem em conta as características do indicador, bem como a complexidade da área da educação. Algumas das limitações debatidas recentemente são:
Ao olhar os resultados do Ideb, é importante considerar que a disparidade nos resultados de escolas pode ser consequência não apenas pela qualidade do ensino da unidade, mas do contexto no qual está inserida.
Caminhos para o novo Ideb
Atualmente, há diferentes propostas e reflexões em torno da reformulação do indicador.
Uma das propostas se refere à inclusão de métricas que permitam observar a redução ou aumento das disparidades raciais, socioeconômicas e regionais. Nesse mesmo caminho, uma demanda é que o Ideb seja mais sensível às desigualdades.
Rankings
Uma prática comum na cobertura jornalística do Ideb são os rankings, que permitem comparar resultados dos estados, dos municípios e das escolas. Embora facilitem a compreensão do público, os rankings são criticados porque geralmente são descontextualizados, já que não levam em conta a complexidade dos processos educacionais.
Na cobertura, comparações entre escolas, muitas vezes, reforçam estigmas e preconceitos contra uma determinada comunidade escolar, especialmente aquelas localizadas em áreas de vulnerabilidade.
Mas cuidado ao generalizar os fatores de sucesso. Experiências bem-sucedidas em uma determinada situação não são necessariamente aplicáveis em outro contexto. Casos de sucesso na educação muitas vezes estão ligados a soluções e políticas desenvolvidas por redes e escolas com base na sua trajetória e na realidade local.
Ideb e eleições
- Em anos de eleições, os resultados do Ideb ganham novos contornos. Segundo o Censo Escolar 2025, estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Paraíba tiveram um aumento expressivo na taxa de aprovação, que é usada no cálculo do Ideb. A tendência é que essas redes elevem a média no Ideb, a ser divulgado nas vésperas das eleições de 2026. Em 2025, as redes estaduais de alguns estados flexibilizaram os critérios para aprovação dos estudantes, segundo contam matérias do O Globo e O Estado de S.Paulo, o que chama a atenção para a inflação artificial das métricas do Ideb.
- A cobertura do Ideb pode contribuir com o debate eleitoral. As pautas podem verificar o ritmo de crescimento do Ideb de estados e municípios em determinado período. Para isso, basta comparar o Ideb das edições anteriores, observando a variação do indicador no período.
- É preciso tomar cuidado ao associar uma política educacional ao Ideb. De maneira geral, as políticas levam tempo para produzir efeitos, então seus resultados (positivos ou negativos) não aparecem necessariamente no Ideb. No entanto, as variações do Ideb servem de ponto de partida para ouvir especialistas, gestores e educadores e, assim, aprofundar o debate.
Análise da série histórica
Cuidado ao comparar a evolução do Ideb de 2005 a 2015. Só na edição de 2009 passaram a ser avaliados os anos finais (8º e 9º anos) do ensino fundamental de escolas públicas rurais que atendiam ao número mínimo exigido de alunos matriculados. Por isso, na comparação da série histórica, leve em conta escolas ou redes de ensino que participaram de todas as edições. Até porque estudos demonstram que as escolas rurais tendem a ter desempenho mais baixo que as urbanas.
Boas práticas
As reportagens podem mostrar as práticas das escolas e redes de ensino com Ideb que atingiram a meta, mas é preciso ter cuidado. Além disso, pode ser relevante analisar uma rede ou escola que não atingiu a meta, mas apresenta um ritmo de evolução significativo.
Mas cuidado ao generalizar os fatores de sucesso. Experiências bem-sucedidas em uma determinada situação não são necessariamente aplicáveis em outro contexto. Casos de sucesso na educação muitas vezes estão ligados a soluções e políticas desenvolvidas por redes e escolas com base na sua trajetória e na realidade local.
Para saber mais
Guia explica o Ideb - Guia da Jeduca.