Por que a educação entra pouco na cobertura? Esta foi a pergunta que deu o tom da mesa “Eleições 2026: o jornalismo de educação na disputa da pauta do dia”, na manhã do primeiro dia (22/9) do 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca.
Mediada por Renata Cafardo, presidente da Jeduca e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo, a sessão teve como convidados os jornalistas Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN; Eliane Cantanhêde, jornalista e colunista do Estadão e do Rádio Jornal (PE); Iuri Pitta, da CNN Brasil, e Mônica Waldvogel, da Globonews.
Eliane iniciou sua resposta, dizendo que a educação “é a questão central de um país cujo problema maior é a desigualdade social”. No entanto, para ela, a pauta imposta em Brasília — como a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Master — ofusca outros assuntos e ocupa muito o tempo e espaço na cobertura.
Porém, enfatizou que a discussão de “qual país você quer?” é, na verdade, uma discussão de “qual educação você quer?”, pois, para ela, a educação é um instrumento capaz de fazer um país melhor. “A política rege o mundo e a política é que vai definir quem vai estar empoderado dentro da discussão de educação”, finalizou.
Mônica concordou que o noticiário acaba sendo tomado pelas urgências e disse que, durante o governo Bolsonaro, havia mais matérias de educação, devido à postura de “confronto”. Ela destacou também que percebe uma certa dificuldade para obter informações oficiais, o que pode prejudicar o espaço da pauta na cobertura.
“Percebi várias vezes o MEC [Ministério da Educação] dizer ‘isso é coisa do município, tem que cobrar ele e o governo do estado’, então você acaba sem pauta nacional forte.”
Mônica Waldvogel
Na mesma direção de Eliane e Mônica, Bernardo falou sobre o destaque da cobertura de Educação nas colunas de política durante a presidência de Bolsonaro, principalmente por causa do perfil dos ministros de Educação. “Tinha um ministro que falava mal português [Vélez-Rodríguez] e que dizia que os brasileiros eram canibais”, disse o jornalista. Em contrapartida, a partir de 2023, com o governo Luiz Inácio Lula da Silva, que faz a “sua obrigação básica de cuidar da educação”, criou-se um “ar de normalidade” fazendo com que os repórteres focassem mais na cobertura política.

Para Bernardo, a pauta mais recorrente é “propina e jatinhos”, não questões do dia a dia das pessoas
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
Para Iuri Pitta, é um desafio trazer os debates necessários para o público, mas isso não significa que a pauta da educação não gere interesse por outras perspectivas, fora do campo político. Ele citou como exemplo as coberturas de serviço, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vestibulares como o da Fuvest, que são de interesse dos jovens. Os resultados das avaliações também despertam audiência. O ideal, contudo, ponderou, seria que o sistema educacional fosse bem montado e bem distribuído, para que não precisasse ser pauta.
“Num mundo ideal, não precisaríamos falar de política de educação na imprensa”
Iuri Pitta
Com relação à audiência, Mônica destacou uma mudança causada pela internet. A jornalista disse que, em sua época de universidade, ensinava-se que a pauta deveria ser focada no interesse público do assunto, e não no interesse do público. Hoje em dia, fala-se em engajamento. “Esse assunto engaja?”, brincou a convidada, afirmando que a métrica importada das redes sociais, baseada na adesão do público, corrompe a forma como se faz o jornalismo.
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Mônica diz que os planos de governo não focam em um aspecto chave: a formação
dos professores [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
Os participantes da mesa não arriscaram possíveis nomes para assumir o MEC, independentemente de quem vença as eleições para a Presidência da República, mas segundo Eliane, a tendência é que os escolhidos sejam alinhados com as visões de cada candidato, seguindo as linhas já conhecidas no debate público.
A jornalista chamou a atenção, no entanto, para a importância da cobertura dos debates sobre educação (e outros temas) no Congresso Nacional, que não vem acontecendo em grande parte por causa do enxugamento das redações. “Tudo passa pelo Congresso Nacional, todos os debates. Quem é que tá acompanhando isso? Ninguém. O debate tá lá jogado”.
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Eliane afirma que não estamos olhando o Congresso Nacional como o grande órgão de debate
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
Outro tema da mesa foi o uso dos indicadores educacionais na campanha eleitoral. Para Bernardo, há um empobrecimento do debate público, com a banalização do uso de dados nas campanhas eleitorais. Ele também chamou a atenção para o avanço da pauta da segurança pública sobre o debate educacional, citando as escolas militarizadas. “A gente fica discutindo se cabe ou não ter policial dentro da escola e não debate a qualidade da merenda, do ensino”, pontuou.
Iuri complementou dizendo que o empobrecimento do debate também tem a ver com o as próprias propostas para a educação, reforçando a ideia da banalização entre os candidatos. “A partir do momento que houver boas políticas públicas, a política tende a acompanhar”, disse, após ter mencionado o caso dos CEUs (Centros Educacionais Unificados) de São Paulo, que foram mantidos por governos de diferentes campos da política.

Iuri Pitta afirmou que trazer os debates necessários é um desafio, mas que
a pauta da educação gera interesse por outras perspectivas fora do campo político [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.