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Guga Scatena/Jeduca
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Mesa debate as perspectivas sobre masculinidade nas escolas, redes sociais e o papel do jornalismo

Debate no primeiro dia do #Jeduca2026 trouxe olhares de pesquisadores, jornalistas e educadores em conversa sobre os impactos das ideologias misóginas na infância e adolescência de meninos

15/10/2026
Por Estela Bughay, repórter da Jornalismo Júnior*

Os desafios da formação de meninos, num contexto de crescimento do conservadorismo, do uso das redes sociais e de movimentos extremos, como os red pill, foram debatidos na mesa “Masculinidades e gênero: como a formação dos meninos hoje impacta a educação e as escolas”, na tarde do primeiro dia do 10° Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca. A conversa contou com a jornalista Cristina Fibe, a antropóloga e pesquisadora Isabela Venturoza, o pesquisador e jornalista Ismael dos Anjos e o sociólogo e professor Sandro Justo. A mediação foi da jornalista Vitória Régia da Silva, do site Gênero e Número.

 

O que os meninos estão falando sobre masculinidade?

 

Para começar a mesa, os convidados esclareceram os fundamentos da masculinidade, sua construção e sua origem. O pesquisador Ismael explicou que, atualmente, os meninos são expostos ao conceito de masculinidade muito cedo e de uma forma muito diferente da que acontecia há dez anos.

 

Como exemplo, o pesquisador citou as pesquisas O Silêncio dos Homens, de 2018 e Meninos: Sonhando os Homens do Futuro, de 2024: ambas mediram o percentual de jovens que tinham o pai como referência de masculinidade, e esse índice caiu de quase 70% para 60% no entre os dois levantamentos. Além do pai, foram citados como referências de masculinidade ídolos do esporte, amigos, professores e influenciadores. “Os meninos estão fazendo uma colcha de retalhos para descobrir o que é ser homem”, concluiu. 

 

A antropóloga Isabela, então, explicou que o conceito de masculinidade não é uma invenção recente, mas a internet está dando uma amplitude diferente para o tema nos últimos anos. Ela aponta o sentimento de “ressentimento de gênero”, motivado pela conquista de direitos por grupos historicamente oprimidos, como mulheres e a população LGBTQIA+, como motivação para que os meninos se sintam ameaçados. Além disso, a ascensão dos movimentos red pill, que conquistaram grande espaço nas redes sociais, contribuem para a construção da masculinidade desses jovens e alimenta o ressentimento contra as mulheres. 

 

 

Sandro Justo é professor no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e tem desenvolvido rodas de conversa
sobre masculinidade com adolescentes. [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 

A conversa seguiu com o sociólogo e professor da rede pública do Rio de Janeiro Sandro, que abordou a forma com que o debate sobre masculinidade chega às salas de aula. Segundo ele, os movimentos red pill e os discursos misóginos fazem parte de um projeto de poder relacionado à ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo.  Por isso, ele argumenta que, ao participar desse universo masculinista, o menino passa o recado de qual grupo ele pertence. “Esse é um grande diferencial da chamada machosfera, do movimento red pill e da misoginia de hoje: é a demarcação de um território político-ideológico”, afirmou.

 

A jornalista Cristina, então, trouxe sua experiência em coberturas de violência contra meninas e mulheres para o debate. Fibe reafirmou o que Isabela havia explicado sobre o ressentimento quanto à conquista de direitos das mulheres e comentou que, além do desinteresse dos grandes veículos em noticiar violências de gênero, há um despreparo nas coberturas do tema. “A gente revitimiza as meninas e não entende as meninas e mulheres por falta de letramento do que acontece”.

 

Como combater? 

Isabela pontuou a importância de não universalizar a construção da masculinidade, pois cada menino é um sujeito único marcado por experiências próprias. “Ninguém é só homem ou só menino, o indivíduo está sempre atravessado por raça, por classe, por sexualidade, por deficiência, por regionalidade”, explicou.

 

Nesse sentido, ela e Ismael compartilharam a experiência das rodas de conversas que realizam com jovens e apontaram diferenças e similaridades entre os participantes. O ideal do homem forte e invulnerável está presente em todos os relatos, mas a antropóloga pontuou que em rodas com meninos em cumprimento de medidas socioeducativas na Zona Leste de São Paulo, há também muitos relatos sobre as violências que eles sofreram.  

 

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Ismael dos Anjos e Isabela Venturoza ministram o curso Masculinidade nas Escolas,
no Instituto Vera Cruz. [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 

As rodas de conversa também são realizadas em escolas e, seguindo a inspiração de Paulo Freire, elas têm o objetivo de promover o diálogo, detalhou Ismael. Entre os temas abordados estão temas de interesse comum entre os meninos e reflexões sobre suas percepções sobre ser “homem”, violências, saúde mental, interseccionalidade, relacionamento com as meninas e com o pai. 

 

O professor Sandro ressaltou que é importante que a desconstrução da masculinidade não seja uma responsabilidade solitária dos educadores e reivindicou mais recursos e condições de trabalho. “Não dá para educadores coordenarem grupos reflexivos e projetos quando eles têm que trabalhar em três escolas para se sustentar”, argumentou. Ele também ressaltou a falta de formação direcionada, o que dificulta o trabalho dos professores. Para ele, a produção de materiais didáticos que orientem essas conversas, como cartilhas pedagógicas, é uma possível solução para o problema. 

 

O papel do jornalismo no debate sobre a masculinidade

A conversa seguiu com a jornalista Cristina aprofundando a análise sobre a revitimização das meninas e mulheres vítimas de violência na mídia. Segundo ela, a falta de acolhimento no momento da denúncia somada à superexposição dos casos contribui para o silenciamento das vítimas. Ela trouxe como exemplo a cobertura do caso João de Deus e o despreparo dela própria e das redações em lidar com o tema.  

 

Ela ainda reforçou o papel do jornalismo no combate à violência contra mulheres. “Esses homens não são monstros nem párias sociais. Eles estão aqui entre nós e estão fazendo isso década após década, saindo impunes. Eu acho que essa é a responsabilidade do jornalismo: realmente começar a olhar para isso”.

 


Cristina Fibe foi responsável pela cobertura do caso João de Deus pelo O Globo, e escreveu o livro
“João de Deus: O abuso da fé” (Globo Livros, 2021). [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 

Para finalizar a mesa, os convidados sugeriram uma pauta para a qual o jornalismo brasileiro poderia se voltar. Para Ismael, é importante que existam coberturas sobre consentimento e sexualidade já que, muitas vezes, o primeiro contato dos meninos com o tema acontece pelas redes sociais e por movimentos de teor misógino. 

 

O professor Sandro apontou a necessidade de mais divulgação de projetos e trabalhos relacionados à masculinidade nas escolas, além da criação de uma “agenda positiva” sobre o tema. “Grande parte desses meninos reproduzem esses comportamentos porque não têm outras referências que problematizam esses comportamentos. Eu acho que a mídia pode cumprir um papel muito interessante nesse sentido”, afirmou.

 

A jornalista Cristina, por sua vez, chamou a atenção para o debate sobre inteligência artificial e as violências de gênero envolvendo a tecnologia. Já a antropóloga Isabela ressaltou a importância de debates envolvendo masculinidade e raça, além de discussões sobre cuidado e saúde mental. 

 

 

 

*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

 

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium. 

 

Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.  

 

#10CongressodaJeduca

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