A segunda mesa do primeiro dia do 10° Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, “Eleições 2026: A educação entre a esquerda e a direita” debateu a polarização política, o avanço do conservadorismo e a influência desses fenômenos na educação.
Para tratar do tema nos contextos nacional e internacional, foram convidados Cara Fitzpatrick, editora do Chalkbeat — veículo especializado em educação nos Estados Unidos — e Alexandre Schneider, professor e pesquisador da EAESP/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas) com mediação de Antônio Gois, colunista de educação do jornal O Globo e membro do Conselho da Jeduca.
O debate teve início em torno do livro de Cara Fitzpatrick, “The death of public school: how conservatives won the war over education in America” (A morte da escola pública: como os conservadores venceram a guerra pela educação na América - em livre tradução). A obra aborda as transformações desencadeadas por políticas que passaram a direcionar impostos para o financiamento de escolas privadas e de formatos alternativos, como as charter schools (escolas públicas administradas pelo setor privado).
A autora, questionada sobre o que a levou a escrever sobre o tema, contou que quando era jornalista na Flórida, escreveu sobre desigualdade no sistema educacional e, ao analisar que muitos alunos de escolas públicas estavam se mudando para escolas particulares, buscou entender os motivos. Ela contou que, na apuração, identificou que existem diversos grupos que questionam a escola pública, e que, embora não compartilhem as mesmas visões sobre a política, tendem a se juntar para propor alternativas à escola pública.
“Quando se juntam, se juntam só para ideias convenientes, depois você vê fraturas”
Cara Fitzpatrick
Ao ser questionado sobre o cenário atual da educação brasileira e as mudanças nos últimos anos, Schneider comentou sobre sua experiência como secretário municipal e estadual de educação. Disse que, em 2006, observava cobranças políticas na sociedade “tinha greve, tinha imprensa presente”. Já por volta de 2017, segundo ele, iniciou-se uma guerra cultural que fragiliza as fragilizadas.
Como exemplo, Schneider contou o caso de um vereador de São Paulo que invadiu uma escola pública para filmar e verificar se os professores estariam “doutrinando” as crianças.
Ele também mencionou a retirada das referências a questões de identidade de gênero do texto final da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), dificultando a abordagem dessas questões na escola. Na época, ele era secretário e como estratégia para inserir trabalhar as questões de gênero nas escolas, incluiu os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) no currículo, pois eles abordam a temática.
“Muitas vezes os políticos não conseguem fazer esse balanço de proteção e entendimento de que existe um espaço público que tem que ser um terreno comum que lida com uma sociedade plural”
Alexandre Schneider
A jornalista Cara agregou outro aspecto ao debate, ao chamar a atenção para o fato de que, atualmente, as percepções sobre a qualidade do ensino nas escolas públicas e nas escolas alternativas, como as escolas charter, baseiam-se mais em opiniões do que em pesquisas e resultados de avaliações. “Agora, que as pesquisas mostram que o desempenho dos estudantes nos dois tipos de escola é mais ou menos igual, as pessoas não se importam mais com os dados. É mais sobre os valores das famílias e seu direito de fazer escolhas”, conta Cara. “Existe uma percepção de que a escolha dos pais é intrinsecamente boa”.
Já no Brasil, Schneider afirma que há uma influência das políticas educacionais dos Estados Unidos, mas elas chegam aqui com defasagem de alguns anos. Nesse sentido, ele problematiza a ausência de um agenda. “Na minha visão, é o problema de a gente não ter uma agenda para a educação, ao contrário do que a gente acredita”, analisa ele. Segundo ele, desde que o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) foram criados a política educacional gira em torno deles, o que gera lacunas no debate educacional. O efeito disso, afirma Schneider, é o fortalecimento da polarização e a centralidade de temas como homeschooling, questões de gênero e sexualidade em detrimento dos projetos educacionais. Alexandre alertou também que, no Brasil, uma aliança entre esse conjunto de valores e a crença de que escolas privadas são melhores está se fortalecendo.
“No Brasil, não discutimos quem são os nossos alunos, quais devem ser nossas escolas ou qual deve ser a formação dos nossos professores”
Alexandre Schneider
Por fim, os convidados foram questionados sobre as melhores formas de exercer o jornalismo de educação em cenários políticos polarizados.
Cara chamou atenção para a importância de analisar as fontes dos dados e pesquisas sobre a qualidade das escolas públicas e aquelas de modelos alternativos. “Hoje em dia é comum escolher os dados que mais interessam a um ponto de vista. Então é importante que os jornalistas saibam como ler e interpretar os resultados das pesquisas. Também é importante identificar a fonte da pesquisa e atentar aos detalhes. Como jornalista, a parte mais difícil é pegar os dados de uma pesquisa e transformá-los em algo que seja entendível para o leitor”, afirma.

Foto: Guga Scatena/Jeduca
Enquanto agente público, Schneider ressaltou pontos que considera importantes para tomar as melhores decisões: construir relações de confiança, entender que todos na área têm legitimidade para tomar decisões, não priorizar apenas a própria visão de mundo, ser transparente e, na condição de secretário, manter uma boa relação com os governantes.
*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.