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Guga Scatena/Jeduca
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Mesa debate relação entre o desenvolvimento da linguagem na educação infantil e aprendizagem

Pesquisadoras da Universidade de Harvard falam sobre as oportunidades e desafios para a aquisição de habilidades em leitura e compreensão de textos pelas crianças em mesa do 10º congresso da Jeduca

21/10/2026
Por Hellen Rodrigues, repórter da Jornalismo Júnior*

A influência das oportunidades e a qualidade das experiências com a linguagem na educação infantil para o desenvolvimento de leitura e compreensão de textos durante sua vida escolar dos estudantes foi o ponto de partida do debate da mesa “Leitura e escrita, o elo entre a educação infantil e o fundamental”, na manhã do segundo dia (23/09) do 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca.

 

A sessão contou com a presença das professoras e pesquisadoras da Universidade Harvard Catherine Snow e Paola Uccelli. A mediação foi de Mirella Araújo, colunista do Jornal do Commercio (PE) e diretora da Jeduca.

 

Com base em suas pesquisas, Catherine e Paola falaram sobre a condução de crianças e adolescentes para o exercício do pensamento crítico e as diferentes formas de correlacionar as experiências iniciais do ensino infantil com os aprendizados na fase do ensino fundamental.

 

A pesquisadora Catherine é especialista no desenvolvimento da linguagem e alfabetização, com foco na relação entre esses dois processos. Já Paola estuda as diferenças socioculturais e individuais no desenvolvimento da linguagem entre alunos multilíngues e os que falam só uma língua.

 

 

Paola Uccelli foi orientada por Catherine Snow em seu doutorado [Imagem:Guga Scatena/Jeduca]

 

As pesquisadoras contaram que começaram estudando crianças e a relação delas com o aprendizado. Catherine analisava como essa faixa etária aprendia a falar e as diferenças de resultado naquelas que eram bem expostas à alfabetização. Paola concentrou-se em analisar a forma como as crianças aprendiam línguas diferentes. Nesse interlúdio, ambas notaram problemas na comunicação e na compreensão de textos em adolescentes, associados às experiências na educação infantil. 

 

Em suas pesquisas, Catherine percebeu que as mesmas crianças que aprendiam a ler no ensino infantil apresentavam uma carência na compreensão de textos quando chegavam ao ensino fundamental. Paola, por sua vez, notou que, apesar de crianças hispânicas se mostrarem fluentes em inglês, elas não conseguiam entender textos escolares. Ela, então, percebeu que o problema que impedia a compreensão escrita era a grande diferença entre a linguagem oral e a escrita. 

 

Nesse sentido, ela enfatizou que não basta alfabetizar a criança, é preciso continuar o desenvolvimento da leitura e da escrita ao longo de sua vida escolar. 

 

“Nós pensávamos que se as crianças fossem preparadas para serem leitoras fluentes aos 7, 8 anos, elas estariam prontas para a vida toda. Mas já temos décadas de pesquisas que mostram que a alfabetização continua na adolescência e para além dela”.


Paola Uccelli

 

 
 
 

Paola é coautora do livro “Learning through Language: Towards an Educationally I
nformed Theory of Language Learning (2019)”
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 
 

Alfabetização como processo


Para as autoras, a principal forma de manter o desenvolvimento da alfabetização nas diferentes fases escolares é trabalhar com assuntos interessantes tanto para crianças quanto para adolescentes. A partir disso, é possível aprofundar progressivamente a aprendizagem. 


As pesquisadoras explicam que conhecer as letras, os sons e as linguagens torna-se automático para as crianças com o passar do tempo, mas a compreensão sobre esses fatores pede uma maior noção do mundo. Nesse contexto, a leitura é responsável por grande parte desse repertório. “Você precisa expandir a linguagem e o conhecimento”, afirma Paola. 


Elas apontam que ler, perguntar e promover o diálogo com os colegas são estratégias que podem ser usadas desde o ensino infantil até o fundamental. Engajar a leitura em torno de livros de interesse dos alunos e utilizá-los para estimular o pensamento e o senso crítico é uma base que pode ser usada em ambas as fases escolares. 


Para Catherine, usar o interesse dos alunos por um desenho pode destrinchar novas formas de compreender o mundo. A pesquisadora cita, por exemplo, que falar de princesas também pode ser um meio de ampliar o repertório das crianças: debater ciência política e indagar o porquê de alguns personagens viverem em um universo de monarquia e outros não. Desse modo, as crianças também desenvolvem a linguagem e sua capacidade de compreender textos. 

 

“As crianças pequenas não aprendem uma língua apenas ouvindo, elas aprendem usando-a, então oportunidades de falar entre elas e com os adultos sobre assuntos interessantes é o currículo ideal para a educação infantil”.


Catherine Snow

 

 
 

O papel dos professores


As pesquisadoras destacam a importância dos professores para manter o elo entre a educação infantil e o ensino fundamental, a fim de que a alfabetização não seja uma ruptura e aconteça de forma a respeitar o desenvolvimento infantil.


Na visão das educadoras, é importante que os professores construam um ambiente favorável à socialização e à expressão das crianças, abordando temas que as crianças continuarão a aprender nas etapas seguintes. 


Ler histórias em voz alta e incentivar a conversa sobre o que foi lido, preferencialmente alguns dias depois, é a principal estratégia apontada: dessa forma, os alunos têm tempo para pensar no tema e absorver melhor as informações. Essas são práticas que podem ser realizadas em todas as fases escolares, contribuindo para o desenvolvimento do repertório, do conhecimento sobre o mundo e a capacidade de compreensão de textos.

 

 

Catherine é coautora do livro “Unfulfilled Expectations: Home and School Influences
on Literacy (1998)”
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 

Em contrapartida, elas apontam alguns desafios existentes no sistema escolar. Ambas trouxeram a realidade estadunidense e afirmaram que a profissão docente está perdendo prestígio e, por isso, os alunos com melhor desempenho estão se distanciando do magistério e optando por seguir em outras áreas. 

 

Nesse contexto, Catherine e Paola ressaltaram a importância dos jornalistas e os cuidados necessários na hora de falar sobre os professores: estimular um olhar diferente ao invés de apedrejar a conduta profissional, analisar as dificuldades que os profissionais enfrentam e traçar formas de ajudá-los.

 

O impacto das telas 

 

Na mesa, também foi debatido o uso do celular na sala de aula. Paola cita estudos que apontam que o uso excessivo de tecnologia está fazendo com que as pessoas falem menos umas com as outras, pronunciando menos palavras. 

 

“Estamos falando menos, os pais falam menos com os filhos e estamos mais expostos à informação fragmentada. Precisamos, mais do que nunca, proteger as conversas face-a-face, proteger a atenção sustentada, a leitura sustentada nas escolas, porque precisamos treinar o cérebro a sustentar a atenção, a leitura de um texto, de um livro”, disse.

 

 


Esta é a primeira edição do Congresso da Jeduca realizada nas dependências da
Universidade de São Paulo (USP)
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]

 

 

Catherine reforçou que, para tornar o diálogo produtivo,  é preciso fazer o aluno pensar e considerar contra-argumentos, explorar novas explicações e realmente entender o tema. “As pessoas aprendem a falar falando, mas não é falar por falar, é falando de uma maneira academicamente produtiva. Então precisamos de mais espaços de discussão sobre temas relevantes nas escolas para desenvolver a capacidade de linguagem e fazer com que as crianças se envolvam com um tarefas mais complexas”, afirmou. 

 

Essas habilidades se tornaram, na visão das pesquisadoras, ainda mais relevantes diante dos resultados do Pisa 2025 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), que mostrou queda das habilidades de leitura entre estudantes de 15 anos em todo o mundo, num cenário de avanço da inteligência artificial, pois as pessoas precisam de habilidades mais complexas de leitura e compreensão de texto para lidar com as informações e conteúdos. 

 

 
 
 
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

 

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium. 

 

Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir. 

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