Como contar as histórias sobre os desafios enfrentados pelas crianças em situações de guerra e conflitos sem violar seus direitos e com profundidade? Essa foi uma das perguntas que deram o tom da primeira mesa do segundo dia (23/9) do 10.º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca, “Guerras, imigração, violação de direitos humanos: como o jornalismo internacional dá voz às crianças esquecidas”.
A mesa teve participação de Hadeel Arja, jornalista investigativa e documentarista síria, fundadora e editora-chefe do site Tiny Hand, e Jo Napolitano, repórter sênior do The 74, veículo especializado na cobertura de educação, com quase duas décadas de experiência em veículos como o The New York Times e Newsday. A mediação foi do jornalista brasileiro Yan Boechat.
Hadeel abriu sua fala explicando que o Tiny Hand é uma plataforma independente e tem como objetivo narrar as vivências de crianças afetadas por deslocamentos e violações de direitos humanos através do jornalismo investigativo.
De acordo com ela, o veículo surgiu da necessidade de contar essas histórias sem violar os direitos das crianças e com uma profundidade que não era possível no ritmo de produção da grande imprensa internacional. Um dos diferenciais do Tiny Hand é o uso de narrativas visuais interativas, entre outros tipos de recurso, para chegar mais perto do público, gerando impacto e mobilização.
De sua parte, Jo apresenta o The 74 como uma resposta à diminuição da cobertura de educação nos Estados Unidos. “Antigamente costumávamos ter uma infinidade de jornais com equipes de educação robustas. Mas vimos muitos jornais locais simplesmente dizimados ao longo dos anos, completamente fechados ou reduzindo drasticamente a cobertura de educação”, afirmou.
Ela explicou que o site é uma organização sem fins lucrativos especializada em coberturas contextualizadas sobre o sistema educacional dos Estados Unidos e contou que o nome The 74 faz referência às 74 milhões de crianças estadunidenses. Para Jo, a valorização dos assuntos pedagógicos é o diferencial do veículo em relação às editorias de educação de outros veículos.
Durante a mesa, Haadel e Jo contaram algumas histórias que marcaram suas atuações como jornalistas de educação em cenários de conflitos. Acompanhada por uma apresentação de fotos registradas durante as coberturas, Hadeel apresentou casos como o de crianças refugiadas que se deslocam até acampamentos vizinhos para estudar e quando voltam para suas instalações ensinam aos mais novos o que aprenderam.
Outra história é a de um professor que utiliza sua tenda como lousa em aulas de matemática para jovens e crianças nos campos de refugiados.
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Com o intuito de tornar a experiência mais imersiva, o site Tiny Hand conta com uma aba de “Narrativas Interativas”
[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
A jornalista síria conta que uma das consequências quando se trabalha com educação nesses ambientes é o contato com diversas formas de violência, como assédio sexual e trabalho infantil. Diante dessa realidade, Hadeel afirma que o principal objetivo com as narrativas é gerar impacto. “Essa é nossa mensagem como jornalistas: queremos ver ação, queremos ver o impacto das nossas reportagens”.
Por sua vez, Jo, contou como foi a produção da reportagem “Hundreds of U.S. High Schools Wrongfully Refused Entry to Older, Immigrant Student” sobre a seletividade nos processos de admissão de jovens imigrantes em escolas estadunidenses. Alguns anos após descobrir que escolas no distrito de Hempstead, em Long Island, estavam negando a matrícula de adolescentes imigrantes, a jornalista começou a investigar se o fenômeno acontecia em outras partes do país.
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Apesar de nascida na Colômbia, a jornalista Jo Napolitano foi colocada em um orfanato e adotada por uma família
ítalo-americana de Nova York [Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
Ela contou como testou as barreiras que afetam a entrada dos jovens nas escolas: a jornalista afirmou que entrou em contato com 630 escolas de ensino médio passando-se por Hector, um jovem venezuelano de 19 anos fictício. Dentre escolas contatadas, 330 recusaram a admissão do aluno, das quais 204 eram recusas ilegais, segundo a legislação estadual. Jo identificou um padrão nas respostas daqueles que atendiam as ligações. “Uma senhora me disse: 'Você só está nos usando para aprender inglês.’ Essa ideia de 'você está nos usando, está tirando de nós', é muito comum. É como se os americanos tivessem algo para dar e imigrantes estivessem tentando roubar de nós ”.
Durante os contatos, ela também registrou comentários xenofóbicos e racistas, incluindo funcionários que se recusavam a traduzir documentos ou solicitavam vacinas supostamente obrigatórias.
“Não cobrimos apenas o que está na moda. Cada evento é uma chance de levantar a voz das crianças, de dizer às pessoas, aos formuladores de políticas que sim, muitas delas ainda estão fora da escola”
– Hadeel Arja
No bloco final da mesa, Yan direcionou as perguntas ao cenário atual nos Estados Unidos e na Síria, abordando temas como a geração que cresceu durante o governo do ex-presidente da Síria Bashar al-Assad, deposto em 2024, e a atuação do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas) dos Estados Unidos, durante o atual governo de Donald Trump.
Ao ser questionada sobre os impactos da Guerra da Síria, iniciada em 2011, na formação dos jovens, Hadeel se mostrou pessimista em relação ao desenvolvimento dessas crianças. A jornalista sinalizou que, por conta da destruição das infraestruturas, da falta de liberdade e das crises humanitárias – como o colapso dos serviços de saúde, muitas das crianças que se deslocaram durante o conflito, seja dentro do território sírio ou para outros países, não tiveram a oportunidade de estudar, dando origem a uma juventude que não sabe ler ou falar árabe, por exemplo.
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Hadeel Arja já fez coberturas in loco sobre educação em cenários de conflito
no Sudão, Iêmen e em Gaza[Imagem: Guga Scatena/Jeduca]
Outro ponto, segundo Hadeel, é a abordagem agressiva do atual governo na educação. “Há poucas semanas, houve uma reunião importante para a Síria e um oficial sugeriu que precisamos permitir bater em crianças na escola. Isso foi muito chocante. Fiquei mais desapontada.” contou.
Quando questionada sobre os efeitos da perseguição de imigrantes pelo ICE na educação nos EUA, Jo ilustrou o cenário de medo afirmando: “Quando o centro do medo é ativado no cérebro, o do aprendizado é desligado”.
De acordo com ela, o medo afeta não somente as crianças, mas toda a comunidade local. “Antigamente, muitas escolas distribuíam um folheto informativo chamado 'Conheça seus Direitos', que informa aos estudantes e suas famílias o que precisam dizer a um agente de imigração, o que têm permissão de falar, perguntas que são obrigados a responder, perguntas que não são obrigados a responder. Agora as escolas têm medo de distribuir esse material porque isso poderia ser visto como uma atitude contra o governo”.
Ela também contou que as escolas deixaram de fazer eventos como festas com temas latinos, evitando criar situações que possam atrair pessoas que sejam alvo de abordagens por parte de agentes do ICE.
Em contrapartida, a jornalista comentou uma série de estratégias adotadas pelas escolas que ajudam essas famílias a permanecerem nos Estados Unidos, como o encaminhamento das famílias para advogados que possam ajudá-las. Há também casos de mobilização da sociedade local. “Tivemos inclusive casos de pais americanos se voluntariando para levar crianças imigrantes para a escola”, disse.
Para encerrar sua fala, Jo cobrou responsabilidade por parte da mídia e cuidado no uso do termo “migrante”. “Não permito o termo 'migrante' em nenhuma das minhas matérias, e sempre luto contra ele nas manchetes”.
“Migrantes são pássaros. A ideia de migrante é como se você estivesse indo para algum lugar com a intenção de voltar, o que muitas pessoas não estão — elas estão se mudando permanentemente”
– Jo Napolitano
A jornalista também propôs uma revisão da carga negativa em torno do movimento migratório. “Também precisamos parar de falar de imigração como uma 'crise'. Não é uma crise para as pessoas se mudarem de um lugar para outro; elas vêm fazendo isso há séculos”, enfatizou.
A jornalista trouxe também uma reflexão sobre o retrato estereotipado desses corpos na imprensa. De acordo com ela, fotos de crianças com os rostos sujos apoiados em cercas reduzem o potencial desses jovens.
“Com uma educação de qualidade, algumas dessas crianças estarão em Harvard ou em alguma faculdade estadual. Tudo o que vejo é uma força de trabalho, vejo uma população escolar. Precisamos retirar essas conotações negativas.”
– Jo Napolitano
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.