Com textos de Bernardo Medeiros, Luana Riva e Maria Luiza Negrão da Jornalismo Júnior*
Nos dias 22 e 23 de setembro, a Jeduca realizou a 10ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo de Educação. Em meio a uma programação repleta de debates sobre pautas educacionais, o evento concluiu o primeiro dia de atividades com cinco oficinas para apoiar a cobertura de diferentes temas como a educação para cidadania, lideranças escolares, dados sobre desigualdades educacionais, gerais da educação básica e que ajudam a traçar relações entre educação e cultura.
A oficina “Cidadania se Ensina?”, oferecida pelo Instituto Machado Meyer**, discutiu como garantir que a escola seja o espaço onde a formação cidadã aconteça de forma efetiva, equitativa e sustentável. A ideia era discutir pontos de vista, debater desafios da universalização da educação cidadã de qualidade nas redes públicas brasileiras e apoiar a cobertura deste tema.
O encontro reuniu Anna Flávia (Movimento pela Base), Amanda Petraglia (Todos pela Educação), Helena Rabethge (Instituto Machado Meyer), João Tavares (Rede Nacional de Educação Cidadã) e Fabiano Lima (Politize!).
De acordo com documento coletivo dessas organizações, a educação para a cidadania ocupa um lugar importante na legislação e nos documentos orientadores da educação brasileira, porém, o desafio está em fazer com que esses princípios se traduzam em políticas, práticas pedagógicas e experiências concretas nas redes de ensino e nas escolas.
Os participantes abordaram experiências nacionais e internacionais de educação para a cidadania e a importância de desenvolver, desde a educação infantil, competências como empatia, diálogo e participação coletiva. João Tavares mencionou, por exemplo, práticas que estimulam o protagonismo dos estudantes, como projetos de hortas comunitárias, coleta seletiva, galerias de arte e bibliotecas escolares. Já Fabiano Lima chamou a atenção para a necessidade de avançar na pauta no Brasil, onde a educação para a cidadania ainda precisa ganhar espaço.
A discussão também destacou a importância de mobilizar a sociedade para fortalecer políticas públicas de educação cidadã. Como ressaltado no encontro, o jornalismo pode contribuir para ampliar o debate e dar visibilidade ao tema.

A oficina oferecida pela Imaginable Futures** foi realizada pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra) e apresentou ferramentas para identificar desigualdades raciais e transformá-las em pautas jornalísticas. Participaram Cristina Lopes, diretora-executiva, Marcelo Tragtenberg, físico e estatístico, ambos do Cedra, e Luana Nera, jornalista e assessora de imprensa da organização.
Cristina apresentou a plataforma gratuita do Cedra, que cruza estatísticas oficiais com dados de cor e raça para analisar desigualdades em áreas como educação, renda, trabalho e saúde. “Muitas pessoas pensam que a questão racial é pontual na educação ou na renda, mas nós percebemos que quando inserimos a variável racial nas estatísticas oficiais ela sempre apresenta desigualdade”, afirmou.
Marcelo apresentou exemplos dessas disparidades: 33% das gestantes pretas não realizaram o mínimo recomendado de sete consultas pré-natais, ante 18,8% das gestantes brancas. Na educação, apenas 35,5% das escolas predominantemente pretas tinham professores com formação adequada, proporção que chegava a 62,5% nas escolas predominantemente brancas.
“A desigualdade racial começa na barriga”, destacou Marcelo, que também ressaltou a importância de considerar margens de erro e métodos de pesquisa ao comparar indicadores. Já Luana mostrou de que maneira os dados podem orientar investigações jornalísticas, como reportagens sobre diferenças na qualidade do ensino entre regiões predominantemente negras e brancas. Na ocasião, o Cedra também disponibilizou uma cartilha para uso de dados raciais na cobertura jornalística.

A oficina oferecida pela Fundação Itaú** apresentou o Observatório Fundação Itaú, plataforma que reúne dados e pesquisas para apoiar a formulação de políticas públicas e a produção de reportagens sobre educação e cultura. Guilherme Miranda e Lígia Dona, ambos analistas de dados e pesquisas do Observatório, mostraram estudos sobre juventude e mundo do trabalho e hábitos culturais, realizados com apoio do Datafolha, e propuseram aos participantes o exercício de transformar os dados em pautas jornalísticas.
Entre as ideias discutidas, por exemplo, foi sugerida uma pauta sobre a frequência de jovens em peças teatrais no Rio de Janeiro e outra sobre como estimular crianças e adolescentes a participar de atividades culturais presenciais, diante da predominância dos meios digitais.
Guilherme destacou o potencial dos dados para um jornalismo que, além de apontar problemas, investigue alternativas. “O problema sempre é muito evidente, mas as soluções não são. O papel do jornalismo também é mostrar projetos que deram certo e como isso funcionou”, afirmou.
Outras pautas levantadas propunham abordar as mudanças nos hábitos de consumo de jornais e revistas impressos, a integração do teatro à educação e a oferta de atividades culturais em bairros periféricos. A oficina mostrou como o cruzamento de estatísticas e pesquisas pode ajudar jornalistas a identificar tendências comportamentais e desigualdades sociais e a desenvolver reportagens que contribuam para o debate público.

A oficina “Do dado à pauta – o Anuário da Educação Básica na cobertura das Eleições 2026”, oferecida pelo Todos pela Educação e pela Fundação Santillana**, apresentou possibilidades de uso do Anuário Brasileiro da Educação Básica na produção de reportagens sobre a área.
Em sua 13ª edição (2026), a publicação reúne dados do ensino infantil ao médio, incluindo educação técnica e de jovens e adultos, além de indicadores sobre gestão, financiamento, infraestrutura e inclusão. Manoela Miranda, gerente de Políticas Educacionais do Todos pela Educação, destacou que a ferramenta permite consultar informações por estado e, em muitos casos, comparar diferentes anos.
Fernando Leal, da Fundação Santillana, ressaltou a importância de analisar a evolução dos indicadores e relacioná-los a outros dados, em vez de se limitar a retratos pontuais. “É no filme que a história realmente é mais interessante”, afirmou, ao defender o acompanhamento dos números ao longo do tempo e sua comparação com informações de políticas como o Plano Nacional de Educação (PNE).
Os palestrantes também alertaram para os limites das médias na análise de dados educacionais: é importante investigar as diferenças e desigualdades que os números agregados podem esconder.

A oficina “Como o jornalismo pode contar melhores histórias sobre diretores(as) escolares?”, oferecida pelo Instituto Unibanco**, discutiu caminhos para ampliar e qualificar a cobertura sobre liderança escolar de forma mais humana, contextualizada e ética. Participaram Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da escola CETI (Centro Estadual de Tempo Integral) Raldir Cavalcante Bastos em Teresina (PI), Julianna Sampaio, coordenadora de comunicação da Seduc/CE e Vagner Alencar, cofundador e diretor da Agência Mural, com mediação de Mayara Penina, do Instituto Unibanco.
Os participantes criticaram abordagens que retratam diretores como responsáveis isolados por problemas estruturais ou como heróis que compensam, com esforço individual, a falta de apoio do poder público. Também questionaram a concentração da cobertura em rankings e resultados extremos, que deixa de lado a maioria das escolas e as histórias de transformação que acontecem no cotidiano
“É preciso também olhar o meio, não só quem tem um resultado excepcional, do topo, ou quem fica com os piores resultados. Há muitas histórias de superação no meio”, afirmou Carlos Eduardo Rodrigues, de acordo com reportagem produzida por Francy Teixeira para o Meio Norte (PI).
Juliana Sampaio observou que as próprias secretarias de educação contribuem para a valorização dos rankings e prêmios, influenciando a cobertura da imprensa. Mas, para ela, é preciso contextualizar os indicadores e ouvir quem está por trás deles: “Buscar um equilíbrio entre os números e os protagonistas.”
A oficina também trouxe recomendações práticas para a cobertura de escolas: ouvir diferentes atores da comunidade escolar, apurar o contexto antes de divulgar imagens ou situações isoladas e evitar pautas que procurem apenas confirmar uma interpretação prévia. Os participantes reforçaram ainda os cuidados na abordagem de crianças e adolescentes, considerando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Vagner de Alencar resumiu os princípios que devem orientar esse trabalho: “Tudo sempre volta ao lugar da apuração, contexto e ética, principais valores do jornalismo”. O encontro terminou com a defesa de uma relação de confiança entre imprensa e escolas, baseada na escuta, na responsabilidade e no compromisso com o interesse público.
A oficina também trouxe informações da pesquisa Perfil dos(as) diretores(as) e desafios da gestão escolar nas redes estaduais de educação no Brasil, do Instituto Unibanco.

*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
**As oficinas foram oferecidas por patrocinadores do evento.
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.