O uso da Inteligência Artificial (IA) nas redações está alterando o trabalho dos jornalistas, trazendo novos cenários, riscos e oportunidades. Este foi um dos temas discutidos na mesa “IA, educação e jornalismo: aprendizados e novas rotinas nas redações”, durante o 10.º congresso da Jeduca. A sessão contou com Catarina Doria, fundadora do The AI Survival Club, Dora Kaufman, professora do PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Luiza Queiroz, editora da AFP (Agência France Presse), e Shin Suzuki, jornalista da BBC News Brasil, e a mediação foi de Helton Simões Gomes, colunista de tecnologia do UOL.
A mesa começou com Shin analisando o jornalismo digital desde a década de 2000, cenário que acompanha atuando em redações. Para ele, nesse período, o “fazer jornalístico” não sofreu tantas alterações, o que está mudando com a inteligência artificial. “Foram várias mudanças, mas a precisão e a exatidão, preceitos do bom jornalismo, não mudaram porque o jornalista manteve o controle do processo. Com a inteligência artificial isso começa a mudar um pouco, a gente tem uma terceirização de algumas etapas do trabalho para a inteligência artificial. E aí a gente tem que tomar muito cuidado”.
Falando sobre as facilidades que a IA trouxe para o jornalismo, como a transcrição de entrevistas, ele disse que a ferramenta otimiza tempo. Ao mesmo tempo, o algoritmo faz uma hierarquização das informações, pontua os principais momentos das entrevistas e as possíveis aspas para os textos. “É aí que mora o perigo, porque dá a ilusão do trabalho pronto e você começa a tirar a mão do processo. Nós, como jornalistas, precisamos manter sempre a atenção e um princípio do jornalismo desde sempre, o ceticismo e a desconfiança, porque a gente tende a conferir autoridade à inteligência artificial”, complementou. “A checagem vai ser sempre muito importante”.
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Os comunicadores debateram os novos desafios trazidos pela IA (Inteligência Artificial)
para o jornalismo em painel da manhã do 2º dia do #Jeduca2026
Crédito: [Guga Scatena/Jeduca]
Em seguida, Dora falou sobre a natureza da IA utilizada hoje, num cenário em que essa tecnologia já está incorporada à chamada “indústria criativa” como ferramenta para produzir conteúdos e por causa dos danos que ela pode causar.
A professora da PUC-SP concentrou sua fala na análise da natureza da IA, que se baseia nas chamadas “redes neurais profundas”. “Essa técnica é um modelo estatístico de probabilidades. Então quando a gente fala de erro não é porque alguém fez alguma coisa errada, é da natureza dessa técnica. Como ela é um modelo estatístico de probabilidades, é sempre estatístico e é sempre probabilidade”, explicou ela, referindo-se às “alucinações da IA”. “Por isso, a revisão é fundamental porque sempre há chance de equívoco nas respostas”.
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Luiza Queiroz, Dora Kaufman e Helton Simões Gomes durante o 10º Congresso Internacional de
Jornalismo de Educação, realizado em setembro
Crédito: [Guga Scatena/Jeduca]
Outra característica da IA é que ela identifica padrões, o que significa que ela faz uma espécie de resumo de tudo que já foi produzido e está disponível na internet. “Quando eu faço um resumo, eu estou usando o meu repertório. Quando uma ferramenta de IA faz o resumo, é o padrão”, analisou. Apesar disso, essa tecnologia facilita os processos e é tentadora porque otimiza o tempo, mas ao se valerem dela, as produções perdem a contribuição pessoal, pelo menos parte do caráter autoral.
Ela também falou sobre os estudos que identificam perdas cognitivas por causa do uso recorrente da inteligência artificial.
Em sua fala, Luiza trouxe uma perspectiva de dados para a mesa: “Em 2023, a gente analisou toda a produção global de checagem de fatos da AFP e chegou à conclusão de que a IA representava 1,54% dos conteúdos informativos naquele ano. Em 2026, até o momento, subiu para 26,7%”, relatou “É um crescimento acelerado e uma parte relevante do conteúdo de desinformação”.
No entanto, a jornalista pontuou que esse aumento expressivo implica o aumento do uso da IA para fins não necessariamente desinformativos. Boa parte do material são conteúdos de entretenimento aparentemente inofensivos, como os “AI Slops”, termo utilizado para descrever conteúdos de baixa qualidade produzidos em massa por Inteligência Artificial generativa.
Segundo Luiza, esse tipo de conteúdo é relevante no debate sobre desinformação porque “faz as pessoas baixarem a guarda”, porque naturaliza os conteúdos produzidos por inteligência artificial, “borrando o que é real e o que não é".
Em conteúdos de desinformação, a IA não costuma ser utilizada para a produção de conteúdos sofisticados, afirmou Luiza. Apesar do aumento significativo do volume, o uso mais comum são técnicas já bastante conhecidas, como o uso descontextualizado de recortes de uma fala. “Não é sofisticado, mas preocupa pelo volume de produção, que deve continuar crescendo porque essas ferramentas estão disponíveis a um número cada vez maior de pessoas”. Em contrapartida, a checagem jornalística é um processo mais lento, que não consegue acompanhar o ritmo da produção de desinformação.

No painel, os participantes destaram a importância de os jornalistas checarem as informações
e evitarem transferir tarefas para a IA
Crédito: [Guga Scatena/Jeduca]
A influencer Catarina, que trabalha na área de IA Ética, falou sobre a importância de conhecer como as ferramentas funcionam e do letramento crítico, porque a IA está sujeita a erros. “A gente entende que aquilo é uma máquina de probabilidade estatística, que nem está colocando palavrinhas uma do lado da outra, na verdade, está colocando tokens, letras que, em maior probabilidade, estão juntas. Você entende que aquilo é um achismo completo”, disse. Assim , para ela, o letramento crítico é uma forma de proteger as pessoas.
Ela também fez uma reflexão, a partir de uma experiência pessoal em que teve uma conta do Instagram suspensa, sobre o risco de banimento de de contas por uma definição, por vezes arbitrária, de um algoritmo que funciona segundo padrões de probabilidade.
Os participantes fecharam a mesa concordando que jornalistas em tempos de IA precisam manter a desconfiança e sobre a importância das pessoas manterem o controle dos processos.
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*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.