“O suícidio é uma pauta indigesta. Nenhum editor, nenhum jornal, ninguém quer falar a respeito”. A afirmação foi feita pela jornalista e ativista Nalu Saad durante a mesa “Aumento dos suicídios na juventude: qual o papel da escola e do jornalismo nessa discussão?”, realizada em 22 de setembro, no 10° Congresso da Jeduca.
Além de Nalu, a mesa contou com o psiquiatra Gustavo Estanislau e Suzana Singer, jornalista da Folha de S. Paulo. A mediação foi feita por Fabiana Cambricoli, jornalista da editoria de Saúde do Estadão.
O Brasil registra cerca de 1 mil suicídios por ano na faixa etária de 10 a 19 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria com base em dados do Ministério da Saúde. Apesar disso, veículos de comunicação evitam abordar o tema, a fim de evitar o “efeito contágio”, já que estudos mostram que existe uma tendência de aumento do número de casos de autolesão e suicídios após a publicação de notícias sobre esses episódios.
Assim, a mesa abordou a importância de comunicar o tema ao público de forma responsável, enfatizando estratégias de prevenção. O debate também destacou a necessidade de ajudar pais e responsáveis a compreender as autolesões e o suícidio entre jovens, os fatores que podem estar relacionados a eles e como podem apoiar os filhos.
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Para Suzana, muitos pais estão alheios aos sinais de que o filho possa estar enfrentando pensamentos suicidas, enquanto o número de jovens que tiram a própria vida também cresce ano após ano.
A jornalista está escrevendo um livro sobre o tema com base em entrevistas com 21 pais, cujos filhos tiraram a própria vida. Ao longo das entrevistas, ela disse ter percebido a necessidade dessas pessoas falarem sobre os próprios sentimentos, contrariando a tese defendida por seus colegas de que, diante de um tema tão sensível, as famílias tenderiam a se fechar. Suzana também destacou que vários dos pais entrevistados não sabiam que o suicídio é um problema que atinge milhares de pessoas.
Nessa direção, Nalu enfatizou que a falta de informação sobre o tema faz com que os responsáveis não tenham noção de que seus filhos podem praticar autolesões. A ativista contou que começou a falar sobre o assunto após a segunda tentativa de suicídio da filha, a pedido dela.
“As pessoas acham que isso [suicídio] vai acontecer em uma família desestruturada, nunca acham que vai ser na própria casa. Por isso precisamos falar sobre isso”.
Nalu Saad, jornalista e ativista
No entanto, é necessário cuidado ao comunicar o suícidio, visto que, dependendo da maneira como é reportado, há risco de “efeito contágio”. Gustavo citou o exemplo da série “13 Reasons Why”, que trata do tema, gerando debates e dando mais visibilidade ao tema nos Estados Unidos.
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Para Nalu, na cobertura, a primeira coisa a ser feita é se desprender do significado socialmente atribuído ao suicídio. Para a jornalista, o tema deve ser tratado como sintoma de uma condição mental não saudável, e não como uma ação.
Dessa forma, o jornalista tende a fazer escolhas mais prudentes, tanto na linguagem quanto na definição do que deve ou não ser abordado. Por exemplo: em vez de usar o termo “cometeu suícidio”, é recomendável falar “morreu por suícidio”. A mudança permite que o público compreenda o episódio como um sintoma de algo maior.
Também não é recomendável fazer a cobertura no lugar do episódio. Nalu compara com a cobertura de doenças físicas: “Se uma criança tem leucemia, passa mal na escola em que estuda e morre, qual a possibilidade de você fazer a cobertura naquela escola?”, questionou a ativista.
Por sua vez, Gustavo defende que a cobertura deve priorizar a prevenção, em vez de se limitar a noticiar um acontecimento isolado. Ele criticou o caráter imediatista do jornalismo tradicional: “Muitas vezes, algo apenas é falado logo depois que aconteceu, e 15 dias depois todo mundo já esqueceu”, disse.
Como recomendação para a cobertura, Suzana falou sobre a importância de solicitar a aprovação da fonte antes da publicação de uma declaração, mesmo que esta não seja uma prática no jornalismo. “Às vezes a pessoa precisa desabafar e fala várias coisas. Por isso, é importante voltar e perguntar”, disse a jornalista.
Considerando também a falta de informação dos pais sobre os sentimentos dos filhos, Gustavo afirma ser necessário falar sobre a vida adolescente como um todo, não apenas sob a perspectiva da saúde mental.
Todos os convidados ressaltaram a importância da leitura dos manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), como também os de outras instituições destinadas a profissionais da mídia que desejam falar sobre o assunto.
Ao final da mesa, Nalu reforçou que toda reportagem envolvendo crianças e adolescentes deve estar alinhada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo ela, é ideal preservar a identidade do jovem, mesmo quando os pais autorizam sua revelação.
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.