Os desafios da implementação de novas tecnologias nas salas de aula, que buscam o aprimoramento da aprendizagem, mas, por vezes, acabam por prejudicá-lo, foi o tema da mesa de encerramento do 10° Congresso Internacional de Jornalismo da Educação.
O debate contou com Camila Wasserman, pesquisadora nas áreas da educação, inteligência artificial e transformação digital, Éverton de Almeida, professor da rede estadual de Santa Catarina desde 2005 e Juliane Rodrigues Vais, estudante de ensino médio e presidenta da UPES (União Paranaense dos Estudantes Secundaristas). A mediação foi de Isabela Palhares, repórter da Folha de S.Paulo e diretora da Jeduca.
A estudante Juliane conta que no Paraná, o processo de digitalização do ensino começou em 2019 e se intensificou durante a pandemia por conta da necessidade de adaptação ao contexto do momento. Na época, o secretário de Educação, Renato Feder, promoveu a implantação de diferentes tecnologias, deixando como herança mais de 20 plataformas de uso obrigatório pelos estudantes. “Temos várias plataformas dentro das disciplinas. Por exemplo, em português, temos as plataformas Leia Paraná, Redação Paraná e diversas outras”, relata.
“A plataforma não afeta só a maneira do professor ensinar, como também a maneira do estudante aprender”, comenta a estudante Juliane Rodrigues Vais.
Para Camila, o uso desse tipo de ferramenta, evitando que professores e estudantes não se sintam contemplados, está associado a um olhar crítico da tecnologia na educação. Segundo ela, a funcionalidade das plataformas precisa ser pensada a partir de questões como a interação, a absorção do conteúdo e a postura em relação à aprendizagem.
De acordo com ela, é necessário ainda "perceber o momento em que faz sentido o uso da tecnologia”, e dessa forma, ela se mostrará como uma ferramenta auxiliar.
“Nesse processo acelerado de digitalização, deixamos de pensar sobre as condições necessárias para a implementação adequada dessas plataformas”, afirma a pesquisadora Camila Wasserman.
Ou seja, para garantir que a tecnologia tenha intencionalidade pedagógica, é fundamental que as escolas contem com a infraestrutura necessária, inclusive internet, a capacitação de profissionais e a identificação de problemas reais. As plataformas devem ser desenvolvidas com o intuito de solucioná-los. “Condições que vemos aqui que não estão sendo cumpridas”, explica.
Na escola de Juliane, por exemplo, havia aulas totalmente realizadas via plataformas. A escola deveria disponibilizar tablets para sua resolução, todavia, não haviam tablets suficientes para toda a classe, então, quem não conseguisse realizar as atividades naquele momento, teria que realizá-las em casa.
“Não somos contra o futuro, somos contra a forma da qual ele vem sendo construído através dessas plataformas, disse Juliane Rodrigues Vais.
.jpg?1792782672736)
“Os professores não tem espaço de debate, de participação, e nós estudantes muito menos. não
somos escutados pelo Estado.” - Juliane Rodrigues Vais
Outro fator que atropela o olhar pedagógico, segundo Camila, é o entusiasmo relacionado ao avanço da Inteligência Artificial. “Eu acredito que a IA é uma potencializadora, desde que olhemos para ela com intencionalidade educacional”, afirma. Para ela, parte da resistência dos professores ocorre porque eles não veem utilidade das ferramentas disponíveis atualmente.
“Nós pouco estamos participando das discussões sobre quais tecnologias utilizar nas escolas. A interface ainda é ruim, a usabilidade é ruim, as plataformas não têm aplicações dentro da sala de aula”, comenta o professor Éverton de Almeida.

No dia 30 de agosto de 2023, professores e estudantes da rede estadual de ensino do Paraná uniram-se para realizar um movimento que ficou conhecido como “greve dos aplicativos” ou “Plataforma Zero”. O ato consistiu em um dia letivo sem o uso de telas, aplicativos ou plataformas digitais obrigatórias, de modo a priorizar o uso de livros e o modelo de ensino tradicional, no qual o professor transmite diretamente o conhecimento aos alunos. Juliane conta que esse movimento foi promovido pela “falta de sentido” e utilidade das plataformas, na visão dos educadores e dos estudantes.
Para ela, a formação precária oferecida pelas plataformas provoca ansiedade em diversos colegas do ensino médio, porque eles enxergam que essa nova forma de ensino precariza a educação e não os prepara para o ingresso no ensino superior ou no mercado de trabalho. “Os conteúdos são muito banais. O estudante utiliza a plataforma só para ganhar nota, não dá para aprender realmente”, explica Juliane, a repetição dos exercícios exigidos pela plataforma serve para a sua própria formação, não para o aprendizado do estudante.
.jpg?1792782834878)
“Todas as aulas acabam sendo resumidas às plataformas” - Juliane Rodrigues Vais
Para Éverton, essa implantação massiva que ocorre no Brasil desde a pandemia, transparece o desejo de controle sobre a educação por parte do governo, o que corrobora com o discurso dos “professores doutrinadores”. “A greve contra os aplicativos foi uma forma de lutar contra esse movimento, que adentrou as escolas”, ressalta o professor. As plataformas chegam nas escolas como "pacotes” já montados pelo governo, “as aulas vêm prontas, isso vai contra qualquer teoria de currículo. É problemático”, completa.
Ver esse post no Instagram
Ver esse post no Instagram
*A cobertura em texto do 10º Congresso da Jeduca foi realizada pela Jornalismo Júnior, empresa júnior formada e gerida exclusivamente por estudantes do curso de Jornalismo da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação foi realizado pela Jeduca, nos dias 22 e 23 de setembro de 2026, e contou com o patrocínio master de Fundação Itaú, Imaginable Futures, Instituto Machado Meyer, Instituto Unibanco; ouro de Fundação Telefônica Vivo, Grupo Eureka, Todos Pela Educação, Santillana Educação, Fundação Lemann, Instituto Natura, Nova Foundation, Associação Bem Comum; e prata de Fundação Bracell, Parceiros da Educação e Ternium.
Contou também com o apoio da Universidade de São Paulo (USP), da PRCEU-USP (Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária), da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes) e do Colégio Rio Branco. E ainda com apoio institucional de Abej, Abraji, Ajor, Analítica Comunicação, Coalizão em Defesa do Jornalismo, Laboratório de Educação, Instituto Palavra Aberta, Agência Mural e Porvir.