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IELS: confira principais destaques e pontos de atenção da avaliação

Estudo inédito traz dados de crianças de três estados brasileiros sobre habilidades fundamentais e socioemocionais, ambiente familiar e desigualdades socioeconômicas e raciais

06/05/2026
Redação Jeduca

Os resultados do IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância), divulgados nesta terça-feira (5/5), trazem informações sobre o desenvolvimento de crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola de nove países, entre eles o Brasil.  

 

No caso do Brasil, que participou pela primeira vez do estudo realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), são informações inéditas que permitem conhecer o desenvolvimento das crianças em três dimensões: 

  • Aprendizagens fundamentais (literacia e numeracia emergentes).
  • Funções executivas (memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório)
  • Habilidades socioemocionais (empatia - identificação e atribuição de emoções -, confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo). 


Os resultados sugerem que as desigualdades educacionais já aparecem na educação infantil.

 

A amostra brasileira foi composta por 2.598 crianças de 5 anos, de 210 escolas (a maioria públicas)  no Ceará, Pará e São Paulo. A amostra não é representativa do universo de crianças brasileiras nessa faixa etária, por isso os resultados não podem ser generalizados para o país.

 

A avaliação foi realizada de forma direta com crianças, com atividades interativas realizadas com tablets e por meio de questionários aplicados a professores e pais e responsáveis.

 

A pesquisa foi realizada nesses estados, porque eles se interessaram em fazer a aplicação. A aplicação foi coordenada pelo LaPOpE/UFRJ (Laboratório de Pesquisa em Oportunidades   Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro). A realização da pesquisa no Brasil foi viabilizada por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

O estudo na íntegra pode ser acessado aqui.

 

 

Principais resultados dos estados brasileiros no IELS

 

Habilidades fundamentais

 

As crianças brasileiras mostraram desenvolvimento compatível com a média da OCDE em literacia e abaixo da média em numeracia. Essas habilidades antecedem a alfabetização formal.

 

Literacia - corresponde ao desenvolvimento da linguagem oral e escrita, segundo o que propõem DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) e o campo da e experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, previsto pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular)

 

Na literacia, que está relacionada aos conhecimentos que precedem a alfabetização formal, são considerados o interesse por livros, a ampliação do vocabulário, a capacidade de compreender e produzir narrativas, reconhecer letras e palavras e a percepção de que a escrita possui função social.

 

Numeracia - relacionada ao trabalho com relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço-temporais, conforme o que propõem as DCNEI e o campo da experiência “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, descrito na BNCC.

 

A numeracia envolve as primeiras noções de matemáticas, e inclui habilidades como contar, comparar quantidades, reconhecer padrões, compreender relações especiais e resolver pequenos problemas do cotidiano.

 

 

 

  • Em literacia, a média dos estados brasileiros (502 pontos) supera a média internacional (500 pontos). 

  • Em numercia, que envolve as primeiras noções em matemática, a média dos estados brasileiros é 456 pontos, contra 500 pontos da média internacional.



Desigualdade por nível socioeconômico

 

A partir de um conjunto de informações (escolaridade, renda e ocupação dos pais ou responsáveis dos estudantes), a OCDE definiu um índice socioeconômico padronizado e adotou a classificação de quatro grupos: baixo, médio-baixo, médio-alto e alto).

 

O estudo indica que, entre as duas aprendizagens fundamentais, o impacto do nível socioeconômico é mais expressivo na numeracia.

 

  • Em numeracia, a diferença entre crianças do nível baixo (429 pontos) e crianças do nível alto (484 pontos) é de 55 pontos. A média internacional é de 500 pontos.

 

  • Em literacia, a disparidade é de 34 pontos de diferença entre crianças no nível baixo (487) e crianças do nível alto (521). Neste último nível, as crianças pontuam acima da média internacional (500 pontos). 

 

Resultados por nível socioeconômico nos estados brasileiros

Numeracia

Baixo - 429

Médio-baixo - 453

Médio-alto - 472

Alto - 484

Média internacional: 500 

 

Literacia

Baixo - 487

Médio-baixo - 496

Médio-alto - 513

Alto - 521

Média internacional: 500 

 

Desigualdade em numeracia e literacia por raça/cor

Outro recorte do estudo é a análise das habilidades  por raça/cor: tanto em literacia quanto em numeracia, o desempenho de crianças brancas supera o de crianças pardas e pretas.

  • Em literacia, a diferença chega a 17 pontos entre crianças pretas (490 pontos) e crianças brancas (507 pontos), enquanto que a média de crianças pardas é de 500 pontos.


  • A disparidade por raça/cor é maior em numeracia: crianças brancas (463) fazem 40 pontos a mais do que crianças pretas (423). Crianças pardas obtiveram 447 pontos.

 

  • A média internacional é de 500 pontos.

 

De acordo com o pesquisador responsável pelo estudo, entrevistado na Folha de S.Paulo, os resultados indicam que as desigualdades educacionais precedem o ensino fundamental e tendem a ser cumulativas. 

 

Segundo o estudo, a combinação de  baixo nível socioeconômico, identificação racial (preto, pardo ou indígena) e gênero masculino, está associada a resultados piores. As maiores disparidades nos resultados foram encontradas em numeracia, memória do trabalho e controle inibitório.

 

Numeracia - Resultados por raça/cor

Pretos - 423

Pardos - 447

Brancos - 463

 

Literacia - Resultados por raça/cor

Pretos - 490

Pardos - 500

Brancos - 507

 

Resultados por gênero

 

Os dados mostram diferenças pequenas entre meninas, que se saem melhor em literacia, e meninos, que pontuam mais em numeracia. 

 

Numeracia - Resultados por gênero 

Meninas: 454

Meninos: 458

 

Literacia: - Resultados por gênero 

Meninas: 508

Meninos: 497

 

Funções executivas

 

De acordo com o estudo, as três funções executivas avaliadas (memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental) são importantes para a aprendizagem e convivência social. Elas se relacionam com a capacidade das crianças de seguir instruções, resolver problemas e persistir em tarefas, por exemplo. 

 

  • Os resultados dos estados brasileiros nas três funções executivas estão abaixo da média internacional (500 pontos). 

 

Resultados dos estados brasileiros

Memória de trabalho - 468

Controle inibitório - 453

Flexibilidade mental - 473

Média internacional - 500

 

  • No recorte por nível socioeconômico, a memória de trabalho é a função com maior disparidade no desempenho entre crianças com menor nível socioeconômico (448 pontos) e crianças de maior nível socioeconômico (487 pontos).

 

Habilidades socioemocionais

Um conjunto de habilidades socioemocionais das crianças, que envolvem o reconhecimento e compreensão das emoções, lidar com conflitos e a interagir e cooperar com outras pessoas, também foram avaliadas no IELS. 

 

Habilidade

Média dos estados

Média internacional

Empatia - identificação de emoções

491

500

Empatia - atribuição de emoções

501

500

Confiança

467

500

Comportamento pré-social

485

500

Comportamento não disruptivo

461

500



Ambiente de aprendizagem em casa

Através de questionários aplicados aos pais e responsáveis das crianças, o estudo traz informações sobre o ambiente de aprendizagem e desenvolvimento em casa. Confira alguns destaques:

 

  • Entre as famílias das crianças que participaram do estudo no Brasil, 14% leem livros para os pequenos de 3 a 7 vezes na semana. A média internacional é de 54%.


  • A prática mais comum relatada pelas famílias brasileiras é conversar com as crianças sobre como elas se sentem, 56% dizem fazer com frequência na semana. A média internacional é 76,3%.


  • Segundo as respostas de pais e responsáveis, 50,4% afirmam que as crianças acessam dispositivos digitais (como celulares e tablets) todos os dias. Esse percentual é superior à média internacional (46%). O estudo aponta uma associação entre o uso diário de dispositivos a queda nas pontuações em literacia e numeracia, segundo destaca matéria do Estadão

 

 

Pontos de atenção

 

  • A partir do universo analisado no IELS, que considera os dados de crianças de três estados, é possível inferir que a defasagem educacional entre o Brasil e outros países tende a se acentuar nas  etapas mais avançadas de escolarização - ou seja, conforme avançam no ensino fundamental e ensino médio. Por exemplo, no Pisa 2022,  também organizado pela OCDE, que avalia estudantes de 15 anos, o desempenho dos adolescentes brasileiros é inferior à média da OCDE em todas as áreas (leitura, matemática e ciências), principalmente em matemática.

    Segundo resultados do Pisa 2022, 73,7% dos estudantes brasileiros estão na faixa 1 de desempenho, abaixo da proficiência esperada em matemática, contra 31,1% na média dos países que compõem a OCDE. 
  • Os dados do IELS podem apoiar reportagens sobre educação infantil e primeira infância, mas é importante sempre contextualizar que os estados não são representativos do país e que o universo analisado no estudo contou com apenas nove países, sendo o Brasil o único situado na América Latina.

  • Os resultados do IELS podem ser fonte de pautas que aprofundem as relações entre as diferentes dimensões do desenvolvimento infantil, pois o estudo avalia diferentes dimensões.

 

 

Na mídia


Ao fim da pré-escola, crianças mais pobres apresentam menor rendimento que as mais ricas - Folha de S.Paulo


Mais da metade das famílias nunca ou raramente leem livros com as crianças, alerta estudo - Revista Crescer 


Crianças brasileiras têm dificuldades com noções matemáticas desde a primeira infância, indica OCDE - Valor Econômico


Famílias do Brasil lêem 4x menos para crianças do que a média mundial - Metrópoles 

 
 

 

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