Os resultados do IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância), divulgados nesta terça-feira (5/5), trazem informações sobre o desenvolvimento de crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola de nove países, entre eles o Brasil.
No caso do Brasil, que participou pela primeira vez do estudo realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), são informações inéditas que permitem conhecer o desenvolvimento das crianças em três dimensões:
Os resultados sugerem que as desigualdades educacionais já aparecem na educação infantil.
A amostra brasileira foi composta por 2.598 crianças de 5 anos, de 210 escolas (a maioria públicas) no Ceará, Pará e São Paulo. A amostra não é representativa do universo de crianças brasileiras nessa faixa etária, por isso os resultados não podem ser generalizados para o país.
A avaliação foi realizada de forma direta com crianças, com atividades interativas realizadas com tablets e por meio de questionários aplicados a professores e pais e responsáveis.
A pesquisa foi realizada nesses estados, porque eles se interessaram em fazer a aplicação. A aplicação foi coordenada pelo LaPOpE/UFRJ (Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro). A realização da pesquisa no Brasil foi viabilizada por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
O estudo na íntegra pode ser acessado aqui.
As crianças brasileiras mostraram desenvolvimento compatível com a média da OCDE em literacia e abaixo da média em numeracia. Essas habilidades antecedem a alfabetização formal.
Literacia - corresponde ao desenvolvimento da linguagem oral e escrita, segundo o que propõem DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) e o campo da e experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, previsto pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular)
Na literacia, que está relacionada aos conhecimentos que precedem a alfabetização formal, são considerados o interesse por livros, a ampliação do vocabulário, a capacidade de compreender e produzir narrativas, reconhecer letras e palavras e a percepção de que a escrita possui função social.
Numeracia - relacionada ao trabalho com relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço-temporais, conforme o que propõem as DCNEI e o campo da experiência “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, descrito na BNCC.
A numeracia envolve as primeiras noções de matemáticas, e inclui habilidades como contar, comparar quantidades, reconhecer padrões, compreender relações especiais e resolver pequenos problemas do cotidiano.
Desigualdade por nível socioeconômico
A partir de um conjunto de informações (escolaridade, renda e ocupação dos pais ou responsáveis dos estudantes), a OCDE definiu um índice socioeconômico padronizado e adotou a classificação de quatro grupos: baixo, médio-baixo, médio-alto e alto).
O estudo indica que, entre as duas aprendizagens fundamentais, o impacto do nível socioeconômico é mais expressivo na numeracia.
Resultados por nível socioeconômico nos estados brasileiros
Numeracia
Baixo - 429
Médio-baixo - 453
Médio-alto - 472
Alto - 484
Média internacional: 500
Literacia
Baixo - 487
Médio-baixo - 496
Médio-alto - 513
Alto - 521
Média internacional: 500
Desigualdade em numeracia e literacia por raça/cor
Outro recorte do estudo é a análise das habilidades por raça/cor: tanto em literacia quanto em numeracia, o desempenho de crianças brancas supera o de crianças pardas e pretas.
De acordo com o pesquisador responsável pelo estudo, entrevistado na Folha de S.Paulo, os resultados indicam que as desigualdades educacionais precedem o ensino fundamental e tendem a ser cumulativas.
Segundo o estudo, a combinação de baixo nível socioeconômico, identificação racial (preto, pardo ou indígena) e gênero masculino, está associada a resultados piores. As maiores disparidades nos resultados foram encontradas em numeracia, memória do trabalho e controle inibitório.
Numeracia - Resultados por raça/cor
Pretos - 423
Pardos - 447
Brancos - 463
Literacia - Resultados por raça/cor
Pretos - 490
Pardos - 500
Brancos - 507
Resultados por gênero
Os dados mostram diferenças pequenas entre meninas, que se saem melhor em literacia, e meninos, que pontuam mais em numeracia.
Numeracia - Resultados por gênero
Meninas: 454
Meninos: 458
Literacia: - Resultados por gênero
Meninas: 508
Meninos: 497
De acordo com o estudo, as três funções executivas avaliadas (memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental) são importantes para a aprendizagem e convivência social. Elas se relacionam com a capacidade das crianças de seguir instruções, resolver problemas e persistir em tarefas, por exemplo.
Resultados dos estados brasileiros
Memória de trabalho - 468
Controle inibitório - 453
Flexibilidade mental - 473
Média internacional - 500
Um conjunto de habilidades socioemocionais das crianças, que envolvem o reconhecimento e compreensão das emoções, lidar com conflitos e a interagir e cooperar com outras pessoas, também foram avaliadas no IELS.
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Habilidade |
Média dos estados |
Média internacional |
|
Empatia - identificação de emoções |
491 |
500 |
|
Empatia - atribuição de emoções |
501 |
500 |
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Confiança |
467 |
500 |
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Comportamento pré-social |
485 |
500 |
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Comportamento não disruptivo |
461 |
500 |
Através de questionários aplicados aos pais e responsáveis das crianças, o estudo traz informações sobre o ambiente de aprendizagem e desenvolvimento em casa. Confira alguns destaques:
Na mídia
Ao fim da pré-escola, crianças mais pobres apresentam menor rendimento que as mais ricas - Folha de S.Paulo
Mais da metade das famílias nunca ou raramente leem livros com as crianças, alerta estudo - Revista Crescer
Crianças brasileiras têm dificuldades com noções matemáticas desde a primeira infância, indica OCDE - Valor Econômico
Famílias do Brasil lêem 4x menos para crianças do que a média mundial - Metrópoles