Em ano de campanha eleitoral, o financiamento da educação deve aparecer nas propostas de candidatos e ser tema de discussões públicas nos próximos meses. Outro fator que também joga luz às questões orçamentárias é a aprovação de dois instrumentos para a educação brasileira nos últimos meses — o novo Plano Nacional de Educação 2026-2036 (PNE) e o Sistema Nacional de Educação (SNE).
No caso do PNE, o financiamento adequado é apontado como essencial para que sejam alcançadas as metas da educação brasileira no próximo decênio. O SNE, por sua vez, ao prever orientações para a colaboração e articulação entre os entes federados, define regras para o novo parâmetro de financiamento da educação: o CAQi (Custo Aluno-Qualidade Inicial).
Por fim, em 2026, está prevista a revisão dos critérios de distribuição de recursos do principal mecanismo de financiamento da educação básica, o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação).
Por ser um tema que gera dúvidas nos jornalistas, a Jeduca preparou este material sobre financiamento da educação que reúne:
- Contexto e desafios da educação brasileira
- Como funciona o orçamento da educação básica
- Fontes de financiamento da educação
- O financiamento da educação dentro do PNE e SNE
- Fundeb
- Financiamento da educação superior
- Pontos de atenção para as eleições
A educação é um dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição brasileira de 1988. Tendo em vista que o financiamento é essencial para assegurar o acesso, a permanência e a aprendizagem nas escolas, a Constituição estabelece que:
No cenário atual, um ponto de atenção da cobertura envolvendo os mínimos constitucionais é o debate sobre a desvinculação dos pisos constitucionais da educação e a disputa política em torno deste tema, que, de tempos em tempos, retorna à discussão. Geralmente, são economistas ou políticos que defendem a retirada dos pisos de educação (e outras áreas) sob o argumento de que o sistema "engessa" o orçamento.
Em contrapartida, especialistas e atores do campo da educação defendem que a vinculação é essencial para proteger o setor de oscilações políticas e garantir o direito à educação.
Fundeb: É a principal fonte de recursos para a educação básica. O Fundeb funciona como um mecanismo de redistribuição de valores entre estados e municípios. (Leia mais adiante)
Salário-Educação: É uma contribuição social de 2,5% da folha de pagamento das empresas. O montante arrecadado é dividido entre a União (40%) e estados/municípios (60%). A quota estadual e municipal é repassada para estados e municípios de acordo com o número de matrículas no Censo Escolar.
Transferências federais: Podem ser obrigatórias, voluntárias e diretas. Incluem programas geridos pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), como o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e o PAR (Plano de Ações Articuladas), entre outros.
Orçamentos próprios de estados e municípios: Destinação de recursos próprios para arcar com suas responsabilidades constitucionais: as prefeituras têm a responsabilidade de ofertar a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental, os estados são responsáveis pelos anos finais do ensino fundamental e pelo ensino médio.
Emendas parlamentares: São recursos indicados por deputados e senadores para o financiamento de obras, projetos e serviços em diversas áreas, incluindo a educação. Representam um desafio devido ao volume crescente nos últimos anos (incluindo o "orçamento secreto" e "emendas Pix"), o que reduz o volume de recursos disponíveis para o governo federal investir em políticas estruturadas.
Essa meta já constava no PNE 2014-2024, porém não foi cumprida. Em 2023, o percentual do PIB investido em educação atingiu 4,9%.
Compete à Cite (Comissão Intergestora Tripartite) a definição da metodologia de cálculo do CAQi. O cálculo deve levar em conta o conjunto de insumos e custos segundo as características das etapas de ensino e localização, bem como a diversidade regional de cada rede de ensino.
O Fundeb funciona como uma “cesta de impostos” arrecadados pelos estados/DF e municípios, na qual o montante é somado e dividido entre as redes municipais e estadual de um mesmo estado, de acordo com o número de matrículas calculado pelo Censo Escolar.
Em 2026, o Fundeb deverá movimentar R$ 370,3 bilhões, segundo cálculo do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), percentual máximo previsto na Lei do Novo Fundeb, instituída em 2020 (Emenda Constitucional 108/2020).
O novo Fundeb ampliou a complementação da União, paga às redes em que a arrecadação não é suficiente para atingir o valor mínimo por aluno. A partir de 2021, o aporte federal aumentou de forma escalonada, atingindo 23% em 2026. Atualmente, a complementação da União no Fundeb se dá por meio de um modelo híbrido de distribuição de recursos, que abrange três modalidades de complementação que, somadas, chegam a 23%:
VAAF - Valor Anual por Aluno (10%): Segue o modelo de redistribuição existente desde que o Fundeb foi criado, em 2007. No VAAF, os recursos são distribuídos por estado, beneficiando as redes estaduais e as redes municipais que não atingem o valor anual mínimo por aluno, definido anualmente. O cálculo é feito para cada estado e seus municípios, de acordo com sua arrecadação e o número de matrículas.
VAAT - Valor Aluno Ano Total (10,5%): O VAAT considera todas receitas de educação e procura equalizar os recursos distribuídos para redes municipais com baixa receita, mesmo que localizadas em estados ricos. O objetivo é reduzir as desigualdades locais.
VAAR - Valor Aluno Ano Resultado (2,5%): Esta complementação é dividida em dois subcomponentes. Para se habilitarem para receber o recurso, as redes estaduais e municipais precisam se adequar a cinco condicionalidades e comprovar evolução em indicadores de resultado de atendimento escolar e a aprendizagem com equidade.
No período eleitoral, também podem surgir temas relacionados ao financiamento das instituições de ensino superior públicas e podem ser retomadas discussões sobre sua sustentabilidade e autonomia financeira.
Universidades e institutos federais - A União é a principal responsável pela educação superior pública no Brasil, com a atribuição do financiamento das universidades e institutos federais. O orçamento dessas instituições é definido pela LOA (Lei Orçamentária Anual). Os valores são repassados às instituições pelo MEC mensalmente, seguindo critérios como o tamanho da instituição, número de alunos, concluintes, áreas do conhecimento entre outros. Elas também contam com recursos próprios e financiamento de agências de pesquisa.
Universidades estaduais - O financiamento das universidades estaduais é responsabilidade dos estados, conforme a arrecadação de impostos. As instituições também podem ter outras fontes de financiamento (contratos, convênios, parcerias, arrecadação própria e agências de pesquisa).
Em São Paulo, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) é a base do financiamento das universidades estaduais: USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo).
No Paraná, o financiamento das universidades estaduais é definido anualmente pela LOA. Outro exemplo é a UEA (Universidade do Estado do Amazonas), financiada por empresas do polo industrial de Manaus, como explica matéria da Exame.
ProUni e Fies - A União também é responsável por programas que viabilizam o acesso ao ensino privado: Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e ProUni (Programa Universidade para Todos), que funciona por meio de isenções fiscais para instituições privadas em troca de bolsas, não aparecendo no orçamento de educação.
No Fies, as mensalidades são pagas inteira ou parcialmente pelo governo, enquanto os estudantes assumem a dívida após a graduação. Desde que foi criado em 1999, o programa passou por diversas reformulações, tendo um período de expansão no número de contratos entre 2012 e 2014, seguido por uma redução, em 2015, por conta da crise fiscal. Um dos principais problemas relacionados ao Fies é a elevada inadimplência.
Privatização do ensino superior - A desestatização das instituições públicas de ensino superior é um tema em debate na área da educação. Há quem defenda a cobrança de mensalidades de estudantes, doações/cobranças de egressos das universidades e parcerias público-privadas como alternativas para assegurar a sustentabilidade financeira das instituições.
Por outro lado, a melhora na eficiência administrativa é apontada como desafio das instituições, sendo uma possível solução para a falta de recursos e deficiências de gestão.
Viabilidade financeira das propostas dos candidatos - Na cobertura das eleições, é importante verificar e questionar os candidatos sobre a viabilidade das propostas para a educação. Quais são as propostas? Quanto elas deverão custar? Como o custo das propostas será alocado no orçamento, de acordo com as regras fiscais vigentes?
Gastos com educação - Com o fim do ciclo de gestão estadual, os jornalistas podem averiguar qual o panorama de gastos com educação nos estados, incluindo o que está nessas despesas e o quanto representam no orçamento estadual.
Ferramentas para fiscalização - As reportagens podem fiscalizar os recursos públicos na educação por meio de plataformas e fontes de dados. Porém, ao olhar para essas plataformas, é importante estar atento às informações disponíveis e ao nível de detalhamento dos dados de cada uma.
Cruzamento de Informações: Um caminho é cruzar os dados de planilhas de recursos com os números do Censo Escolar. A partir de informações sobre o número de alunos e dos repasses que foram recebidos, será possível identificar irregularidades e erros nas informações dadas pelas prefeituras.
Atenção aos termos - Ao olhar para os gastos com educação nas plataformas, é importante entender a diferença entre Dotação Inicial (previsão) e Dotação Atual (com cortes ou remanejamentos), e Empenho (reserva do recurso) e Gasto/Pagamento (dinheiro efetivamente transferido).
Valorização docente - Promessas de valorização docente podem surgir nos discursos dos candidatos. Na cobertura das eleições estaduais, vale conferir se os estados pagam abaixo, dentro ou acima do piso nacional do magistério. Outra pergunta válida no período eleitoral é o que pode ser feito em relação à remuneração de efetivo
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